Repetir a média das últimas faturas pode esconder riscos contratuais e levar companhias a subestimarem um dos principais custos operacionais do próximo ano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Divulgação — Foto: Divulgação Com o início das discussões sobre orçamento e prioridades para 2027, empresas começam a projetar despesas com fornecedores, pessoal, tecnologia e expansão. A energia, no entanto, ainda costuma entrar no planejamento financeiro como uma simples repetição da média das contas pagas nos meses anteriores. A prática pode fazer com que companhias subestimem custos, mantenham contratos desalinhados ao perfil de consumo e deixem de identificar riscos que afetam diretamente o caixa. O valor pago pela energia depende de fatores como volume contratado, sazonalidade, horário de consumo, prazo dos contratos, condições de mercado e mudanças previstas na operação. O alerta ganha força após um período de instabilidade no mercado livre de energia. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em julho mostrou que ao menos 11 comercializadoras acumulavam mais de R$ 6 bilhões em dívidas. Outras análises apontaram passivos ainda maiores entre os principais agentes afetados pela crise. Para Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, o cenário mostrou que a projeção do custo energético não pode considerar apenas o preço. "A empresa precisa avaliar quanto espera consumir, mas também de quem está comprando, quais garantias existem, quando o contrato vence e qual é sua exposição caso a contraparte não consiga cumprir o acordo. Energia passou a exigir uma análise financeira e de risco mais completa", afirma. Média das faturas pode criar falsa previsibilidade Projetar o orçamento com base no histórico funciona apenas quando a operação permanece estável e as condições contratuais não mudam. Uma empresa que pretende abrir unidades, instalar equipamentos, ampliar turnos ou elevar a produção em 2027 provavelmente terá um perfil de consumo diferente. O mesmo ocorre quando contratos de energia se aproximam do vencimento. Mesmo que o consumo permaneça igual, o preço negociado anteriormente pode não estar disponível na renovação. Adiar a análise reduz o tempo para comparar propostas, negociar condições e avaliar diferentes cenários. "Quando a energia entra no orçamento apenas como uma correção da fatura anterior, a empresa trabalha com uma previsibilidade que pode não existir. O planejamento precisa incorporar as mudanças da operação e as condições do contrato", explica Sozzi. Além do valor estimado, as empresas precisam verificar se a energia contratada corresponde ao consumo esperado. Contratar menos que o necessário pode aumentar a exposição ao mercado de curto prazo. Contratar acima da demanda, por outro lado, pode fazer a companhia pagar por um volume que não utilizará. A volatilidade dos preços também precisa ser considerada. Dados da CCEE mostram que o Preço de Liquidação das Diferenças varia ao longo do dia e é influenciado por condições de oferta, demanda e operação do sistema elétrico. As dificuldades financeiras enfrentadas por comercializadoras em 2026 também colocaram a solidez das contrapartes no centro da discussão. Entre as empresas que recorreram à recuperação judicial estão Tradener, Electra, Elétron, IBS Energy e 2W Ecobank. O problema para o consumidor não se limita à possibilidade de interrupção contratual. Quando uma comercializadora deixa de honrar a energia vendida, a empresa pode precisar recompor sua posição em um momento desfavorável, contratando novamente por preços diferentes dos previstos. "Uma proposta mais barata não representa necessariamente a melhor decisão. A análise precisa considerar a capacidade financeira da comercializadora, as garantias oferecidas, a estrutura do contrato e o impacto de uma eventual quebra para a operação", ressalta Sozzi. Por isso, a gestão de energia para 2027 deve envolver não apenas as áreas operacionais ou de compras, mas também os responsáveis pelo planejamento financeiro, jurídico e gestão de riscos. Planejamento deve trabalhar com cenários Em vez de definir um único valor para a despesa, as empresas podem construir diferentes projeções. Um cenário-base considera a continuidade da operação, enquanto outros simulam aumento do consumo, expansão, mudanças de preço, necessidade de contratar volumes adicionais ou problemas com fornecedores. Também é necessário mapear os vencimentos contratuais e identificar quais decisões precisam ser tomadas ainda em 2026. A antecedência amplia a capacidade de negociação e evita que a empresa seja obrigada a contratar energia em condições emergenciais. Para Sozzi, a principal mudança está em deixar de tratar energia como uma despesa estática. "O orçamento de 2027 não deve responder apenas quanto a empresa gastou com energia em 2026. Ele precisa mostrar quanto será necessário para sustentar o plano de negócios, quais riscos podem alterar esse valor e como a companhia pretende se proteger", conclui.
Conta de energia precisa entrar agora no planejamento financeiro das empresas para 2027
Repetir a média das últimas faturas pode esconder riscos contratuais e levar companhias a subestimarem um dos principais custos operacionais do próximo ano






