Secas, vendavais, ondas de calor e chuvas intensas já influenciam a gestão de ativos e começam a orientar decisões de investimento 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Segundo Bárbara Rubim, da Absolar, eventos climáticos são avaliados como furto de equipamentos e componentes — Foto: Divulgação O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos começa a mudar a forma como empresas do setor elétrico avaliam riscos, operam ativos e planejam investimentos. Vento, calor, chuva, alagamento, seca e queimada impõem desafios distintos a usinas e redes de transmissão e aumentam a preocupação não só com a integridade da infraestrutura, mas também com a capacidade de retomada da operação. A adaptação começa a entrar no planejamento de longo prazo das companhias. “Resiliência deixou de ser um tema de manutenção e passou a ser de concepção do projeto", diz Vinicius Crema, diretor de operações da Alupar, que atua com geração, transmissão e comercialização de energia. A companhia detém participação em 45 concessões de transmissão no Brasil, Colômbia e Peru e soma 798,5 MW de capacidade instalada em 12 empreendimentos de geração hidrelétrica, eólica e fotovoltaica. Para linhas de transmissão, o mais preocupante são eventos como tempestades e ventos severos, raios, alagamentos, deslizamentos e queimadas, capazes de afetar ao mesmo tempo vários alvos, incluindo linhas, subestações, sistemas de comunicação e até a logística necessária para uma resposta eficiente. “É esse efeito combinado que exige um preparo diferente do que o setor fazia dez anos atrás”, diz Crema. Nos últimos cinco anos, a empresa investiu R$ 367,1 milhões para dar maior resiliência e capacidade de resposta aos ativos de transmissão no Brasil. Na geração, o clima sempre foi uma variável, já que chuva, vazão dos rios e regime de ventos influenciam o desempenho dos ativos. Secas prolongadas ou menor disponibilidade de ventos reduzem a eficiência operacional. Segundo Crema, quando a empresa avalia um novo empreendimento, um dos pontos centrais, além de custo, prazo e desempenho esperado, é a exposição a eventos climáticos ao longo do ciclo de vida, medido em décadas. Para o setor solar fotovoltaico, com 74,3 gigawatts de potência instalada, o problema são ventos fortes, calor excessivo - há perda de eficiência quando a temperatura excede os 40 ºC, devido ao superaquecimento dos módulos fotovoltaicos e outros componentes - e alagamentos, que podem afetar inversores. Esses riscos vêm sendo mapeados, mas ainda não influenciam decisões de investimentos, segundo Bárbara Rubim, presidente do conselho de administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). “Como os eventos climáticos estão aumentando em frequência e intensidade, eles começam a entrar na matriz de risco a ser avaliada, tal qual o furto de equipamentos e componentes”, afirma. Resiliência deixou de ser um tema de manutenção e passou a ser de concepção” Ventos extremos e altas temperaturas também estão na matriz de risco da geração eólica. Mais do que manter a estrutura de geração intacta - turbinas têm mecanismos de proteção e entram em modo de proteção quando a velocidade dos ventos ultrapassar 22 metros por segundo -, a preocupação das empresas tem sido a de reativar a produção de energia sem maiores prejuízos, caso ela precise ser paralisada. “Temos hoje no setor um investimento alto em pesquisa e desenvolvimento para tornar nossos sistemas mais resiliente”, diz Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). A Auren Energia, com 8,7 GW de capacidade instalada em 39 usinas distribuídas por nove Estados, aposta na diversificação do portfólio justamente para lidar com a variabilidade do clima. Dentre seus empreendimentos, 54% são de geração hidrelétrica, 36% de eólica e 10% solar. Mudanças nos padrões hidrológicos, como na vazão dos rios, têm demandado acompanhamento mais preciso, além da participação da empresa no mecanismo de realocação de energia (MRE), estratégia do setor para compartilhar entre hidrelétricas os riscos relacionados à variação da geração. Com o MRE, a energia excedente de algumas usinas pode ser contabilmente realocada para aquelas que produziram menos, reduzindo a exposição individual às oscilações da produção. Parques eólicos e usinas solares da companhia têm sido monitorados a partir da análise de dados históricos. De acordo com Rafael Campolina, gerente executivo de sustentabilidade da Auren Energia, a resposta ao aumento da frequência de eventos extremos também passa pela alocação de capital e orienta a análise de novos investimentos. “Os riscos e oportunidades climáticas são variáveis consideradas na avaliação de novos investimentos, ao lado de eficiência operacional, retorno e geração de valor no longo prazo”, afirma.