Fluxo se intensifica entre países africanos e ganha espaço na agenda regional, com características que por vezes lembram os vizinhos do norte, com aumento de xenofobia e denúncias de tratamento desumano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Migrantes aproximam-se de posto de fronteira para retornar ao Marrocos, escoltado por soldados espanhóis, em Ceuta — Foto: Henry Nicholls/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Apenas 6% dos imigrantes africanos entram no território europeu de forma irregular. O fluxo migratório interno tem crescido entre nações vizinhas devido a conflitos locais. Muitos trabalhadores preferem evitar o deserto do Saara por causa de grupos armados. O aumento da migração regional gerou episódios graves de xenofobia na África do Sul. Países mais ricos do continente ainda barram tratados de livre circulação de pessoas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Enquanto a chegada de cerca de 70 mil migrantes em Ceuta, exclave espanhol no norte da África, abriu uma crise na União Europeia e acirrou discursos anti-imigração e de possível ameaça à soberania, o incidente na cidade autônoma, cujas circunstâncias ainda não foram de todo esclarecidas, oferece um ângulo estreito sobre o fluxo migratório na região. As tentativas de travessia ilegal a partir de rotas no norte da África para a Europa estão em queda, segundo dados da Organização Internacional de Migrações (OIM) e da Agência Europeia da Guarda Costeira e de Fronteiras (Frontex), ao passo que o número de mortos e desaparecidos no trajeto aumentou. Em contrapartida, especialistas apontam que a migração se intensificou entre países africanos e tem ganhado espaço na agenda regional, com características que por vezes lembram os vizinhos do norte, com um aumento nos casos de xenofobia e denúncias de tratamento desumano contra pessoas vulneráveis no controle de fronteira. — Muito da população migrante africana na Europa entrou no continente de forma legal. Só 6% entrou ilegalmente — afirmou o economista bissau-guineense Carlos Lopes, ex-subsecretário-geral da ONU e Diretor Político do secretário-geral Kofi Annan, em entrevista ao GLOBO. — É importante mudar essa imagem que toda a gente pensa, dos africanos a nadar no Mediterrâneo em direção à Europa. Quatro grandes rotas ilegais com partidas de países africanos em direção à Europa são mapeadas pela Frontex (veja mapa abaixo). Entre janeiro e julho, o número de tentativas de travessia caiu para 52.905 neste ano, em comparação a 84.993 no mesmo período do ano passado. Três rotas tiveram menor tráfego, incluindo a tradicionalmente mais movimentada, do Mediterrâneo Central, que foi incorporada à pauta anti-imigração da direita italiana, por ter como destino final, em muitos casos, o sul do país. Só a rota do Mediterrâneo Ocidental, que tem como destino o sul da Espanha e é onde os cruzamentos para Ceuta teoricamente seriam contabilizados, teve uma tendência de alta. O pico migratório da semana passada ainda não foi computado aos dados, mas se considerado em sua integralidade representaria sozinho um número comparável ao total do ano passado (99.846 cruzamentos). Em contrapartida, a queda no número de cruzamentos não se traduziu em uma redução do número de mortos no trajeto. A OIM, entre janeiro e abril, registrou 1.340 mortes e desaparecimentos, contra cerca de 900 no mesmo período do ano anterior. Três das rotas registraram aumento, com exceção da rota Atlântica, por meio da qual migrantes tentam chegar às Ilhas Canárias, território espanhol na Costa da África, em viagens navais de até 2,4 mil km. Ainda assim, casos registrados após o balanço consultado mostram que a travessia é arriscada e cobra um alto custo: após o resgate de uma embarcação que ficou à deriva na Costa da Mauritânia, autoridades declararam que 143 dos 180 passageiros originais estavam mortos ou desaparecidos. Rotas de imigração da África para a Europa — Foto: Arte/ O GLOBO Fenômeno norte africano Embora a migração africana à Europa seja frequentemente associada às instabilidades políticas e crises humanitárias em países do continente, os dados revelam que cidadãos de países como Egito, Argélia e Marrocos, considerados governos estáveis e economias importantes na região, aparecem entre os detidos mais frequentes pela Frontex, ao lado de nacionais de Sudão, Mali, Somália e Eritréia, que passam por crises agudas. — Os migrantes que atravessaram para Ceuta eram, em grande parte, marroquinos. Não estamos falando de africanos subsaarianos, que são o perfil tipicamente associado a muitos discursos. Na realidade, a maioria dos migrantes que segue para a Europa é do Norte da África — afirmou a pesquisadora Wendy Williams, do Africa Center for Strategic Studies, em Washington. — Isso acontece tanto porque a distância é curta e o investimento necessário para tentar chegar é menor, quanto pela existência de laços pessoais e culturais com as comunidades na diáspora, o que naturalmente exerce uma atração. Migrantes escoltados por soldado espanhol em Ceuta, durante operação de retorno a Marrocos — Foto: Jorge Guerrero/AFP Lopes analisa o fenômeno migratório dentro de uma lógica de oferta e procura. O pesquisador, que há anos estuda a relação entre demografia e economia, afirma que o continente africano vive um "boom demográfico", ao passo que a Europa passa por um declínio populacional. A necessidade por mão de obra de um lado do Mediterrâneo acaba por atrair a população jovem na outra margem. — Ainda não há emprego suficiente na África para este crescimento demográfico no curto prazo. Vai haver no longo prazo, provavelmente, com 2026 sendo o primeiro ano que o FMI projeta para a África um crescimento maior que o da Ásia, mas não existe no curto prazo. Portanto, há uma espécie de disponibilidade, uma oferta reprimida, que obriga cidadãos africanos a considerarem outras hipóteses. Entre crises e inseguranças Muitos marroquinos que cruzaram em direção a Ceuta apontaram o alto desemprego entre os jovens do país como motivo para imigrar. Em contrapartida, Rabat é um dos centros de desenvolvimento no continente que tem virado destino para cidadãos de países que atravessam graves crises políticas e sociais, em um complexo movimento migratório interno. — O que temos observado é muitos africanos migrando para países vizinhos. É interessante notar que muitas pessoas da região do Sahel [onde ocorreram golpes de Estado em série nos últimos anos] têm evitado atravessar o Saara [em direção às rotas no norte] — explicou Wendy, citando riscos crescentes representados por grupos armados que controlam as rotas da região. — Muitas pessoas de Burkina Faso e de Mali estão optando por migrar para a Costa do Marfim, por exemplo, onde há mais oportunidade de trabalho. Mesmo quem tem decidido seguir em direção ao norte, acrescenta a pesquisadora, tem se deslocado a leste, a fim de usar a rota Atlântica e evitar a travessia do Saara. Embora também seja um caminho arriscado, a percepção de risco parece ter se intensificado pelo controle exercido por grupos armados nas rotas desérticas, quanto por práticas controversas de controle de fronteira. Imigrantes são levados em barco de resgate no Mediterrâneo na costa da Itália em novembro de 2022 — Foto: SEVERINE KPOTI/AFP Agências humanitárias e organizações internacionais denunciaram nos últimos anos casos em que grupos de migrantes sem documentos foram interceptados e imediatamente deportados em países como Tunísia e Argélia, sendo abandonados em regiões desérticas à própria sorte. Na Líbia, migrantes foram submetidos a trabalhos forçados por grupos criminosos que dominam territorialmente áreas do país. O risco crescente não se restringe ao Saara e às rotas europeias. A Etiópia, que se tornou destino final para muitos migrantes, serve como trampolim, ao lado da Somália, para quem tenta chegar às ricas monarquias do Golfo, sobretudo a Arábia Saudita. O caminho frequentemente envolve passar pelo Iêmen, país que enfrenta uma das maiores crises humanitárias do mundo e está em guerra civil. O fluxo não diminuiu no começo deste ano, mesmo após o início da guerra entre EUA, Irã e Israel, que afetou todo o Oriente Médio. Sul-africano hostiliza migrante durante protesto xenofóbico em Alexandra, África do Sul — Foto: Emmanuel Croset/AFP Acirramento da xenofobia A migração no centro e no sul africanos tem sido sobretudo interna, segundo os especialistas. África do Sul, Quênia e Uganda estão entre os destinos de nacionais de dezenas de países que buscam em economias mais robustas melhores oportunidades de vida. O fluxo migratório, porém, resultou em manifestações xenofóbicas e incidentes internacionais. Em Johannesburgo e Alexandra, movimentos como o "Abahambe" ("Eles têm que ir", em tradução livre), voltou-se contra estrangeiros de países como Malawi, Nigéria e Zimbábue, acusados de "roubar os empregos" dos sul-africanos, em um momento em que o país atravessa desafios econômicos. Os protestos foram violentos e, em muitos casos, resultaram em agressões físicas e intimidação. Países como Angola e Gana tiveram que organizar operações de retirada, enquanto um levantamento da AFP estimou quase 176 mil deslocamentos forçados. Há confirmação de pelo menos quatro mortos. 'Estrangeiros, voltem para os seus países quer vocês 'os consertem' ou não. Não nos importamos', diz cartaz de manifestante durante ato em Soweto — Foto: Mzingenkosi Sibanda/AFP — Temos esse paradoxo. A África se posiciona no debate internacional a favor de uma política migratória mais flexível, mas os principais países africanos fazem o contrário do que dizem — avaliou Lopes. O economista menciona que uma série de iniciativas de integração continental estão em discussão, incluindo um tratado de livre-circulação proposto pela União Africana, ao qual 27 países já aderiram. O projeto vem sendo barrado, porém, justamente pelos países mais ricos da região. Lopes prevê, porém, que o tema não tem como ser ignorado no debate regional. — Há uma espécie de efeito colateral nisso tudo. Uma série de países, nomeadamente Gana, querem inscrever a questão da xenofobia sul-africana na agenda da União Africana para a próxima reunião de cúpula. O pedido já passou pelo crivo de duas instâncias — disse o professor. — É inevitável que vá haver um ponto na agenda sobre essa questão.
Imigração ganha força dentro da África enquanto cai para Europa, mas com letalidade maior
Fluxo se intensifica entre países africanos e ganha espaço na agenda regional, com características que por vezes lembram os vizinhos do norte, com aumento de xenofobia e denúncias de tratamento desumano













