Entre 50 e 60 mil pessoas atravessaram a fronteira em dois dias, em uma das maiores ondas migratórias da história recente europeia; aspectos políticos podem ter ligação com o caso 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovem faz prece com joelhos no chão ao completar travessia para Ceuta — Foto: Jorge Guerrero/AFP Entre as cerca de 50 a 60 mil pessoas que cruzaram a fronteira entre Marrocos e Espanha na cidade autônima de Ceuta, no norte da África, entre quinta e sexta-feira, o jovem Youssef Alaoui, de 26 anos, afirmou ter sido incentivado por autoridades no lado marroquino da fronteira para seguir com uma arriscada travessia a nado, que vitimou pelo menos 34 pessoas em dois dias, segundo o balanço do governo espanhol. O cenário descrito pelo jovem, e por outros migrantes que também se lançaram em direção ao território europeu para fugir do alto desemprego entre jovens e das instabilidades políticas do país, parece revelar um aspecto político dentro de um quadro multifacetado, que abriu frentes de crise internas e externas para o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez e pode ter relação com o passado colonial do país na região. — Eles apenas ficaram repetindo: 'Vá naquela direção, vá naquela direção' — disse Alaoui em entrevista ao jornal americano New York Times, relatando o encontro do grupo com que seguia para atravessar a fronteira forças de segurança marroquinas na quinta-feira. Ceuta é, tradicionalmente, um ponto da fronteira europeia sensível a migrações. Embora a região tenha sofrido com outras pressões migratórias importantes, o aumento exponencial do fluxo em um espaço de poucas horas superou em muito o registrado no mesmo período durante a crise migratória de 2015, deixando autoridades atônitas e em busca de explicações — enquanto dispararam críticas por parte de setores conservadores, em um tema polarizador na política europeia. O governador espanhol Juan Jesus Vivas disse que o total de travessias havia quase igualado a população total do enclave, de cerca de 83 mil pessoas, e que era impossível "absorver tamanha pressão". Em visita a Ceuta, Sánchez classificou a situação como "uma violação e um ataque à integridade territorial da Espanha", culpando "redes de tráfico humano" pela crise. O premier espanhol disse que agentes criminosos teriam espalhado desinformação sobre uma decisão da Suprema Corte do país, que determinou que mecanismos de deportação imediata de migrantes ilegais não se aplicavam àqueles que chegassem pelo mar. Migrantes ouvidos pela mídia internacional disseram ter visto publicações em redes sociais de que a fronteira estaria "aberta". Com ajuda de boia, migrantes fazem travessia a nado em direção a Ceuta — Foto: Jorge Guerrero/AFP O secretário-adjunto do oposicionista Partido Socialista Unificado do Marrocos, Abdullah Abaakil, disse que uma enxurrada de mensagens nas redes sociais no país sobre a decisão do Judiciário espanhol foi percebido nos últimos dias, mas chamou de "surpreendente" o fato de o Estado marroquino não ter "adotado nenhuma medida preventiva ou de proteção". Os numerosos relatos de migrantes sobre a passividade na fiscalização — e mesmo de incentivo — na quinta-feira levantaram questionamentos de uma possível ação deliberada do governo marroquino para pressionar o governo espanhol. Não seria a primeira vez. Mais de 10 mil migrantes atravessaram a fronteira de Ceuta, em maio de 2021, após Rabat flexibilizar a fiscalização. À época, o governo marroquino condenou Madri por ter recebido para tratamento médico o líder da Frente Polisário, organização que luta pela independência do Saara Ocidental — uma ex-colônia espanhola, atualmente controlada pelo Marrocos. A crise só chegou ao fim em 2022, após o governo espanhol abandonar sua neutralidade quanto ao tema e reconhecer um plano de autonomia proposto por Marrocos. Entretanto, Sánchez pode ter irritado Rabat ao ter viajado para a Argélia em 20 de julho, na primeira visita em quatro anos de um chefe de governo da Espanha ao país do norte da África. Rival histórico do Marrocos, com quem rompeu relações diplomáticas em 2021, Argel é uma apoiadora histórica da Frente Polisário. Migrantes sentam em rochas após nadarem por águas próximas à fronteira com o Marrocos — Foto: Jorge Guerrero/AFP Falta de perspectivas Embora não esteja claro o fator que teve peso decisivo para a atual onda migratória, o deslocamento de até 60 mil pessoas — os números divulgados pelas autoridades locais e federais espanholas são divergentes — expõe uma realidade interna ainda difícil para a população no país africano, que nos últimos anos tem tentado passar uma imagem de modernização. Ao chegar em Ceuta, Ajoub el-Arrot, de 24 anos, afirmou que "todos vieram porque não há trabalho no Marrocos", ao ser questionado por um repórter do New York Times. A metodologia oficial para medir o índice de desemprego no país foi alterada recentemente, inviabilizando uma comparação detalhada de anos recentes. Contudo, os dados atuais apontam que o desemprego entre jovens de 15 a 24 anos é de 29,2%, sendo o grupo mais afetado por faixa etária. Protesto pede libertação do rapper marroquino Mehdi Black Wind, que participou ativamente das manifestações da geração Z — Foto: Abdel Majid Bziouat/AFP A falta de perspectiva, que contribuiu para que muitos se lançassem no trajeto que mata milhares de pessoas por ano, motivou grandes protestos no ano passado, liderados pela geração Z. A pauta dos manifestantes marroquinos incluía principalmente reclamações sobre a empregabilidade e a falta de investimentos em saúde e educação. Mais de 2,4 mil pessoas enfrentaram processos judiciais relacionados aos protestos, segundo um balanço feito em junho. Para o professor Aboubakr Jamai, diretor da Donna Dillon Manning School of Global Affairs em Madri, o interesse dos jovens marroquinos que se lançaram em direção a Ceuta para chegar a solo europeu era "previsível. — A juventude marroquina é vítima de dois fracassos do país: uma economia que não gera empregos suficientes e um Estado policial que cerceia suas liberdades — afirmou. Entre crises Arrot, o jovem de 24 anos que chegou a Ceuta na sexta-feira, disse supor que as autoridades do país tinham permitido a travessia das pessoas para o território espanhol, especulando que "talvez fosse algum motivo político". Ao longo da sexta-feira, Rabat tentou dar resposta à crise, com o envio de mais soldados para a fronteira. Fiscalizações em trens com destino a regiões fronteiriças também foram descritas por jornalistas do país, em cidades distantes da linha de frente das operações. Houve relato de uso de força contra os civis. Se havia intencionalidade de exercer pressão, a estratégia parece ter funcionado. Tanto a oposição na política doméstica, quanto líderes estrangeiros da União Europeia criticaram o governo espanhol pela situação. O governo da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, que adota uma linha dura contra a imigração, anunciou a suspensão temporária do acordo de livre circulação (tratado Schengen) com a Espanha, enquanto Finlândia e Dinamarca defenderam a aplicação da medida no âmbito da União Europeia. O líder da direita espanhola, Alberto Núñez Feijóo, acusou Sánchez de ser o responsável por uma "crise de soberania". Forças policiais enviadas pelo governo de Marrocos nesta sexta entram em confronto com migrantes em Fnideq, perto da fronteira com Ceuta — Foto: Abdel Majid Bziouat/AFP O custo político para Sánchez, que também foi pressionado por integrantes do governo Trump por sua postura progressista em relação à imigração, repercutiu de forma imediata. Em uma tentativa de dar resposta à situação, o governo espanhol enviou militares à Ceuta e deu início a uma operação massiva de expulsão dos migrantes. Em uma nota oficial do Ministério do Interior espanhol, as autoridades informaram que mais de 48 mil pessoas tinham sido retiradas de Ceuta e enviadas de volta para Marrocos. Em uma mensagem obtida pela AFP, quando a contagem estava em 25 mil deportados, o órgão oficial destacou o "ritmo de 150 pessoas por minuto" nas expulsões. Muitas das pessoas forçadas a voltar enfrentaram jornadas excruciantes apenas horas antes de chegarem ao território europeu. Muitos dos migrantes passaram a noite nas ruas da cidade autônima espanhola e o dia sob o sol escaldante. Alguns decidiram voltar voluntariamente em face das dificuldades encontradas. Soldados espanhóis acompanham migrantes em retorno a Marrocos — Foto: Jorge Guerrero/AFP — Não comemos há dois dias — disse Soufiane ez Znafry, de 26 anos, em uma praia junto à fronteira, alegando que muitas das pessoas que retornaram voluntariamente estavam fazendo isso por estarem passando fome, e que todos os supermercados da região haviam fechado. Znafry saiu às pressas da cidade de Tânger, no Marrocos, na quinta-feira, depois que amigos disseram que estavam indo para a Espanha, o que pareceu uma boa ideia, uma vez que disse que seu emprego mal paga as contas de casa. Na pressa, levando apenas uma bolsa com algumas roupas e poucos pertences, ele não avisou aos pais que estava partindo. — Não queria que eles ficassem preocupados — contou ao jornal americano. (Com AFP e NYT)
'Vá naquela direção': Migrantes sugerem possível colaboração de autoridades marroquinas em travessia para Ceuta
Entre 50 e 60 mil pessoas atravessaram a fronteira em dois dias, em uma das maiores ondas migratórias da história recente europeia; aspectos políticos podem ter ligação com o caso












