Já assisti a suficientes debates sobre imigração na Europa, a nível continental, nacional e municipal, para saber que eles são sempre iguais. Na retórica, toda a gente atribui ao outro lado as piores das intenções, ao mesmo tempo que toda a gente admite que a imigração é necessária e que deve ser regulada.

Pode haver quem pense que o número ideal para a imigração é zero, mas exceção feita a uma franja muito minoritária nas redes sociais, toda a gente admite que esse cenário não é possível nem desejável.

Pode haver quem ache que, no mundo ideal, haveria liberdade de circulação global, mas toda a gente admite que, no mundo real de hoje, os Estados continuam a precisar vigiar as suas fronteiras e saber quem entra e quem vive no país.

Teoricamente, as condições políticas existiriam para um quadro legal de migrações que fosse regulado, humanitário e europeu. E não seria impossível na prática, longe disso: durante décadas foi possível aplicar as convenções internacionais para refugiados e requerentes de asilo, por um lado, e instituir programas de imigração por razões de trabalho, estudo ou outras sem que o sistema rebentasse.

O que se passa agora, então? Na verdade, o sistema atual não é regulado nem humano e nem europeu. Na prática, tanto os Estados-membros quanto a própria União Europeia acabaram delegando a Estados terceiros da vizinhança a gestão dos fluxos migratórios nas suas fronteiras.