Praticamente uma centena de jovens morreu esta semana ao tentar nadar na fronteira marítima entre Marrocos e o enclave de Ceuta, que pertence a Espanha.
Correram o mundo as imagens das dezenas de milhares que fizeram essa travessia com sucesso, para, poucas horas depois, serem repatriados para Marrocos, e alimentaram a polarização entre a empatia por quem procura uma vida melhor no futuro arriscando a vida que tem e o pânico com que alguns encaram a imagem de uma suposta invasão demográfica.
Essa polarização não é só um efeito colateral do que se passou. Muito provavelmente, é uma causa; mais do que isso, deve ter sido uma intenção. Sabemos como estas coisas funcionam: quanto mais fraturados estão os eleitorados europeus no tema da imigração e do asilo, mais fácil é aos países vizinhos, praticamente todos autocráticos, usarem as fronteiras como arma de chantagem e pressão.
Foi assim com Gaddafi, na Líbia; Erdogan, na Turquia; Lukashenko, na Bielorrússia; e em 2021 e agora de novo com o rei e o regime marroquino. Basta deixar passar na fronteira, ou até incentivar as gentes desesperadas a avançarem para a Europa, e os políticos têm um chilique.
Assim foi nos últimos dias também. Políticos como Georgia Meloni, que durante anos exigiram solidariedade à União Europeia para a gestão dos fluxos migratórios nas suas fronteiras (a "Ceuta" dos italianos é a ilha de Lampedusa), foram agora os primeiros a deixar isolada a Espanha, ainda antes de entenderem exatamente o que se tinha passado ou até de terem em conta as especificidades da localização de Ceuta.















