Nos últimos dias de julho, milhares de pessoas lançaram-se ao mar diante de Ceuta, enclave espanhol situado na costa africana. Muitos nadaram ao redor das cercas que separam o território espanhol do Marrocos; outros atravessaram por terra ou saltaram as barreiras. Dezenas morreram. As imagens de corpos avançando pela água reativaram, na Europa, a linguagem da "ão".
Mais uma vez, o Mediterrâneo aparece não como espaço de circulação, mas como linha que separaria a civilização daqueles que supostamente vêm perturbá-la. Algumas reações são de um cinismo preocupante: europeus esbravejam porque africanos migram para um território situado... na própria África.
É difícil assistir à "Odisseia" sem pensar nessa atualidade. O filme, lançado em julho, não se limita a transportar para a tela os episódios famosos do poema atribuído a Homero: o ciclope, Circe, as sereias, o regresso a Ítaca. Christopher Nolan insere na narrativa um elemento estranho ao texto homérico, mas ligado ao mundo histórico no qual a tradição sobre a guerra de Troia foi situada: os chamados "do Mar".
Após invadirem o território espanhol Ceuta, migrantes africanos aguardam por alimentação fornecida pela Cruz Vermelha - Violeta Santos Moura - 3.ago.26/Reuters














