Espanha e seus parceiros divergiram sobre a chegada irregular de cerca de 70 mil migrantes a exclave que faz fronteira com Marrocos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Um soldado espanhol observa migrantes sentados no chão antes de escoltá-los de volta ao Marrocos, no enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, em 1º de agosto de 2026 — Foto: JORGE GUERRERO / AFP A União Europeia avaliou nesta terça-feira que o sistema migratório do bloco conseguiu conter com sucesso o aumento repentino no fluxo de migrantes para a Espanha na semana passada, buscando demonstrar unidade após divergências entre seus líderes sobre a resposta inicial ao episódio na cidade autônoma de Ceuta, no norte da África. — Quando foi necessário, a situação foi colocada sob controle — declarou o comissário europeu para Migração, Magnus Brunner, após uma videoconferência com os ministros do Interior da UE. — Isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque agimos juntos. A Espanha e seus parceiros da UE divergiram sobre a chegada irregular de cerca de 70 mil migrantes a Ceuta, exclave espanhol que faz fronteira com Marrocos. Madri argumenta que controlou rapidamente a situação, garantindo que nenhuma pessoa chegasse ao território continental europeu e devolvendo praticamente todos os migrantes ao Marrocos em poucos dias. No entanto, diversos líderes da UE aproveitaram o episódio para criticar o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, chegando até a ameaçar suspender a participação da Espanha na zona de livre circulação do continente, conhecida como Espaço Schengen. — O Espaço Schengen não foi afetado — afirmou Brunner. A UE tenta agora mudar a narrativa após vários dias de troca de acusações sobre o incidente. A Itália liderou, no fim de semana, uma carta crítica dirigida a Sánchez, assinada por 22 líderes, pouco depois de reintroduzir alguns controles de fronteira para viajantes vindos da Espanha. Diversas capitais também acusaram Sánchez, um dos poucos líderes socialistas do bloco, de incentivar a migração por meio de políticas progressistas, incluindo uma iniciativa para conceder autorização de residência a mais de 1 milhão de pessoas. Essa abordagem "poderia se tornar um fator de atração" para migrantes que desejam chegar à Europa, afirmou a ministra do Interior da Finlândia, Mari Rantanen, a jornalistas em Helsinque após a videoconferência desta terça-feira. Centenas de migrantes entram em Ceuta após cruzar fronteira com Marrocos — Essa discussão sobre regularização não envia um bom sinal — concordou Brunner, embora tenha ressaltado que as autoridades ainda não identificaram uma ligação direta com o aumento do fluxo migratório da semana passada. — Entendo que a Espanha adotou essa medida porque ela se aplica principalmente a latino-americanos que falam a mesma língua e compartilham a mesma cultura. Mas, para o restante da Europa, o sinal não é positivo, definitivamente não. As tensões correm o risco de recolocar a União Europeia em um impasse sobre sua política migratória, um tema especialmente sensível desde 2015, quando mais de 1 milhão de refugiados chegaram ao continente. Brunner argumentou que o bloco está muito mais preparado desta vez para lidar com um aumento no fluxo migratório. — Temos regras melhores e um sistema melhor — afirmou. O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, concordou, insistindo que a crise da semana passada não representou uma ameaça para a União Europeia. — O Espaço Schengen nunca esteve em perigo. Nem sequer o menor perigo — declarou a jornalistas em Madri. Migrantes estão sentados na praia de Trampolin enquanto aguardam a entrada no CETI — centro de acolhimento temporário para migrantes — no enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, em 1º de agosto de 2026 — Foto: JORGE GUERRERO / AFP Planejamento futuro As autoridades europeias trabalham agora na atualização dos planos migratórios antes da próxima cúpula de líderes da UE, prevista para outubro. As medidas podem incluir o reforço dos controles de fronteira, a ampliação dos poderes da agência europeia de fronteiras, a Frontex, e a construção de centros para processar migrantes fora do território da União Europeia. A UE também estudará maneiras de utilizar de forma mais eficaz sua influência — incluindo políticas comerciais, de vistos e de desenvolvimento — junto aos países de origem dos migrantes, acrescentou Brunner. A reunião desta terça-feira ocorreu um dia depois de os embaixadores da União Europeia também realizarem um encontro de emergência sobre migração. Durante essa conversa, autoridades europeias alertaram que a Rússia e outros países, incluindo os Estados Unidos, estariam tentando explorar a situação para fomentar divisões dentro do bloco, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Em particular, a Rússia estaria disseminando desinformação sobre o incidente, embora essa campanha ainda não tivesse ganhado força, acrescentaram essas fontes. Autoridades e diplomatas da UE também afirmaram que permanecem dúvidas sobre o motivo exato de milhares de pessoas terem chegado a Ceuta em questão de horas e sobre qual papel o Marrocos pode ter desempenhado. Brunner disse que a Espanha está investigando o caso, ao mesmo tempo em que elogiou a cooperação do Marrocos.