França anunciou o reforço dos controles em sua fronteira, enquanto a Itália ameaçou suspender a participação espanhola no Espaço Schengen, que garante a livre circulação dentro da União Europeia Pessoas na cerca fronteiriça de Tarajal, em Ceuta, enquanto migrantes tentam chegar ao território espanhol — Foto: Reprodução/Associated Press Espanha e Marrocos reforçaram nesta sexta-feira a cerca na fronteira de Ceuta, enclave espanhol no norte da África, e aparentemente conseguiram interromper em grande parte as travessias em massa, depois que dezenas de milhares de pessoas chegaram por terra e mar em apenas um dia. Pelo menos 19 corpos foram encontrados na água. O Departamento de Segurança Nacional da Espanha informou em seu site que mais de 49 mil pessoas cruzaram ilegalmente a fronteira em um período de 24 horas, citando dados do Ministério do Interior. A nota foi posteriormente retirada do ar sem explicação imediata. A entrada em massa em Ceuta, pequeno território espanhol que avança sobre o Mar Mediterrâneo a partir do Marrocos, provocou choque e divisões na Europa. A França anunciou o reforço dos controles em sua fronteira com a Espanha, enquanto a Itália ameaçou suspender a participação espanhola no Espaço Schengen, que garante a livre circulação dentro da União Europeia. Nos acessos a Ceuta, as autoridades marroquinas mobilizaram caminhões com canhões de água para dispersar a multidão e empurrar os migrantes de volta. Perto dali, era possível ver os restos carbonizados de um ônibus e de sete carros incendiados durante confrontos. As autoridades espanholas afirmaram que tentarão expulsar o mais rapidamente possível as pessoas que entraram ilegalmente, apesar de uma decisão judicial que impôs restrições às regras especiais de "rejeição na fronteira", que permitem expulsões imediatas a partir do enclave. O primeiro-ministro Pedro Sánchez tinha visita prevista a Ceuta nesta sexta-feira, acompanhado do ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska. Ceuta e Melilla, outra cidade autônoma espanhola localizada no norte do Marrocos, são as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África. As duas cidades, cada uma com cerca de 85 mil habitantes, registram periodicamente tentativas de entrada de migrantes que buscam chegar à Europa, mas a dimensão da onda de quinta-feira tem poucos precedentes. O ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, afirmou que um dos fatores por trás do aumento das travessias pode ter sido uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, tomada neste mês, segundo a qual migrantes interceptados no mar ao tentar chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos imediatamente com base nas regras especiais aplicadas aos enclaves. Migrantes retornam ao Marrocos vindos do enclave espanhol de Ceuta, sexta-feira, 31 de julho de 2026 — Foto: AP/Antonio Sempere Migrantes seguem chegando à cidade marroquina na fronteira Torres disse a uma emissora de rádio local que o governo espanhol reagiu imediatamente ao aumento das chegadas e que pretende devolver os migrantes, respeitando as decisões judiciais e os direitos dessas pessoas. Do lado marroquino da fronteira, milhares de migrantes continuaram chegando durante a madrugada à cidade de Fnideq, apesar do reforço do aparato de segurança, que impediu a maioria das tentativas de travessia. Embora a passagem principal parecesse bloqueada, grupos passaram a percorrer o litoral em busca de rotas alternativas ao redor da cerca. Alguns se preparavam para atravessar o mar a nado. "Cheguei tarde", disse Brahim, de 32 anos, que preferiu informar apenas o primeiro nome. Ele contou que veio de Tânger esperando atravessar pelo posto de fronteira, mas encontrou a passagem praticamente fechada. Entre os que tentavam cruzar havia mulheres e crianças, tanto do Marrocos quanto de países da África Subsaariana. Em uma publicação na rede X, a associação de policiais espanhóis AUGC afirmou que havia agentes insuficientes para vigiar a cerca durante a onda migratória de quinta-feira, o que impossibilitou impedir as travessias. A imigração é um tema politicamente sensível em toda a Europa, onde partidos de direita ganharam força desde a crise migratória de 2015, quando mais de um milhão de pessoas atravessaram o continente, em sua maioria a pé, buscando asilo após fugir da guerra na Síria. O ministro do Interior da França, Laurent Nunez, afirmou que determinou "o reforço imediato dos controles na fronteira com a Espanha". O comunicado não detalhou como a medida será implementada, e o ministério não respondeu imediatamente a pedidos de esclarecimento. Normalmente, não há controle de fronteiras entre países do Espaço Schengen, embora verificações temporárias possam ser adotadas em circunstâncias excepcionais. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que seu governo está preparado "para intervir com medidas extraordinárias para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, incluindo a suspensão do Espaço Schengen com a Espanha". A ministra do Interior da Finlândia, também integrante de um partido de direita, elogiou a proposta de Meloni e afirmou que a União Europeia deveria seguir o exemplo italiano. Embora o governo socialista da Espanha afirme manter uma postura firme contra as entradas irregulares, também sustenta que a imigração fortalece a economia e promoveu uma ampla anistia que levou centenas de milhares de pessoas a solicitar a cidadania espanhola ao longo do último ano. "As imagens que chegam de Ceuta mostram como a decisão do governo de Madri de conceder cidadania espanhola — e, portanto, europeia — a mais de 500 mil imigrantes irregulares é profundamente equivocada e incentiva o tráfico de pessoas", escreveu o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani. O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, respondeu que a declaração de Tajani foi "inapropriada" e afirmou que Madri espera "solidariedade, e não demagogia partidária" de um país parceiro. Acrescentou que convocará o embaixador italiano para apresentar um protesto formal. Marine Le Pen, candidata da direita francesa à Presidência, afirmou que, se vencer a eleição do próximo ano, limitará a livre circulação prevista no Espaço Schengen apenas a cidadãos europeus. "Diante do fluxo maciço e coordenado de migrantes para a Espanha — incentivado pelo governo espanhol — a França deve reforçar imediatamente seus controles de fronteira", escreveu ela na rede X. Pessoas caminham perto da cidade de Fnideq, no norte de Marrocos, enquanto tentam atravessar para o enclave espanhol de Ceuta, na sexta-feira, 31 de julho de 2026 — Foto: Associated Press
Espanha e Marrocos tentam conter onda migratória após milhares atravessarem fronteira
França anunciou o reforço dos controles em sua fronteira, enquanto a Itália ameaçou suspender a participação espanhola no Espaço Schengen, que garante a livre circulação dentro da União Europeia











