Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que presidente busca capitalizar sentimento nacionalista após a Copa, para mobilizar sua base e reforçar alinhamento com Trump; oposição questiona constitucionalidade da medida 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente da Argentina, Javier Milei, de mãos dadas com o candidato do PL ao Palácio do Planalto, senador Flávio Bolsonaro (RJ) — Foto: Nelson Almeida/AFP Mais do que uma nova política migratória, o decreto assinado na quinta-feira pelo presidente argentino Javier Milei é interpretado por analistas como mais um capítulo de sua estratégia de mobilização política. Ao endurecer as regras para barrar a entrada e facilitar a expulsão de estrangeiros acusados de promover discursos de ódio contra a Argentina, o governo transforma em política de Estado uma narrativa que vinha sendo construída desde a Copa do Mundo: a de que o país seria alvo de uma campanha internacional de difamação. Para cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO, o principal objetivo da medida não é controlar a imigração, mas reforçar um discurso nacionalista em um momento de queda de popularidade, dificuldades econômicas e crescente polarização. Ao mesmo tempo, o decreto aproxima Milei da agenda anti-imigração de Donald Trump, cujo apoio é considerado estratégico para as eleições argentinas do ano que vem. — Há uma percepção interna de que existe de fato uma campanha anti-argentina após a Copa. Por isso, é difícil imaginar que esse decreto tenha uma aplicação prática ampla. Seu principal efeito parece ser político. Milei mobiliza uma pauta ideológica que dialoga com sua base e reforça um discurso nacionalista — disse ao GLOBO o cientista político Luis Schenoni, professor da University College London (UCL). O sociólogo Gabriel Merino, pesquisador do Conicet e professor da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), vê a iniciativa como uma resposta ao cenário interno. — É uma questão puramente política. O decreto tem imprecisões e um caráter anticonstitucional. Tem a ver com a queda da popularidade de Milei nas últimas pesquisas e com a tentativa de aproveitar o sentimento nacionalista que surgiu após a Copa do Mundo. O contexto econômico também não o favorece. Então, ele usa a cartada do nacionalismo — afirmou. Para ele, o presidente também procura transformar adversários externos em alvos políticos internos. — Milei tenta associar essa suposta campanha anti-Argentina ao que chama de "globalismo", ligando-a ao governo do Brasil, ao kirchnerismo e a líderes da social-democracia europeia. Ao mesmo tempo, busca se posicionar como o melhor aluno de Donald Trump na região. A agressividade do discurso também faz parte de uma estratégia de enfraquecimento da integração regional, visível no distanciamento em relação ao Mercosul e na ausência em cúpulas regionais. A oposição fez críticas na mesma direção. O deputado Pablo Juliano, da União Cívica Radical, acusou o governo de praticar um "patriotismo de fachada" motivado por "uma polêmica nas redes sociais". Já Maxi Ferraro, da Coalizão Cívica, classificou o decreto como um exemplo de "ufanismo descuidado e inconstitucional" e afirmou que a medida "parece responder mais a uma necessidade política pessoal do que a uma verdadeira urgência do país". Desde a Copa do Mundo, Milei e seus aliados passaram a atribuir as críticas internacionais dirigidas à seleção argentina a uma campanha organizada contra o país. Na terça-feira, pesquisa publicada pelo Clarín mostrou que 69,1% dos entrevistados acreditam na existência dessa campanha, percepção que, segundo os analistas, ajudou o governo a transformar um debate das redes sociais em uma bandeira política. O decreto altera a Lei de Migração para impedir a entrada e facilitar a expulsão de estrangeiros que promovam discursos de ódio contra a Argentina ou participem de atos de profanação de símbolos nacionais. Embora o texto afirme que críticas políticas e divergências ideológicas protegidas pela Constituição não serão atingidas, ele não define o que será considerado discurso de ódio. Juristas argentinos também questionaram a constitucionalidade da medida e criticaram o uso de um Decreto de Necessidade e Urgência para promover as mudanças.
Para analistas, Milei usa decreto migratório para reforçar nacionalismo e polarização
Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que presidente busca capitalizar sentimento nacionalista após a Copa, para mobilizar sua base e reforçar alinhamento com Trump; oposição questiona constitucionalidade da medida















