Governo acha que Trump e Milei fazem dobradinha para tumultuar eleições e ajudar FlávioPara auxiliares de Lula, estratégia combinada inclui reforço do gabinete do ódio nas redes sociais para lançar dúvidas sobre urnas eletrônicas. A relação Brasil-Argentina se deteriorou após o presidente argentino Javier Milei chamar Lula de 'ladrão' e 'presidiário'. Em resposta, o Brasil chamou seu embaixador de volta. Milei assinou um decreto para expulsar imigrantes que expressam ódio à Argentina. A crise é vista como uma distração dos problemas econômicos internos, com Milei buscando um inimigo externo. A popularidade de Milei está em queda, e ele enfrenta críticas por sua gestão econômica e escândalos de corrupção.A relação entre Brasil e Argentina piorou nos últimos dias depois de o presidente Javier Milei chamar Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência. As ofensas renderam respostas agressivas de dois ministros do governo ao líder argentino e fizeram o Itamaraty chamar de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires em protesto.PUBLICIDADEEmbora a crise agite a base ideológica libertária do presidente, a maioria dos argentinos está, na verdade, ansiosa por anúncios econômicos do presidente. A combinação desse pessimismo com a queda de popularidade do governo, na avaliação de analistas argentinos ouvidos pelo Estadão, faz com que Milei busque um inimigo externo para fugir de seus próprios problemas, de olho nas eleições de 2027, quando deve tentar a reeleição. PublicidadeO presidente argentino, Javier Milei, ao lado do candidato à presidência Flávio Bolsonaro em São Paulo Foto: NELSON ALMEIDA/AFP“A opinião pública está mais focada em outras questões relacionadas à economia e à segurança”, aponta o professor da Universidade de Buenos Aires e de Lanús, Facundo Galván. “O argentino está pensando agora: ‘Vamos ver o que vai acontecer com a economia’; ‘Que anúncio importante o Banco Central fará?’; ‘Como isso nos afetará?’; ‘A economia realmente vai melhorar?’ Porque a situação socioeconômica está muito complicada e continua sendo a principal preocupação na agenda da maioria dos argentinos.”A Argentina registrou o segundo mês consecutivo de queda na atividade econômica, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), o IBGE argentino. Apenas o agronegócio e o setor de energia apresentam crescimento no país. Todos os demais setores retrocedem. A diretora-geral do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva, está em visita ao país e elogiou que a Argentina “está mais saudável” economicamente. Contudo, enfatizou que não haverá mais ajuda financeira ao país e o instou a aumentar suas reservas em dólares. O Banco Central de Milei, no entanto, não compra a moeda desde janeiro. PublicidadeAprovação em quedaComo o argentino não sente no bolso o resultado das reformas econômicas do presidente, isso tem refletido em sua popularidade. Segundo o Índice de Confiança no Governo publicado mensalmente pela Universidad Torcuato Di Tella, Milei sofreu uma queda de 6,5% em comparação com o mês passado e ficou em 1,94 pontos em uma escala de 0 a 5. Itamaraty convoca embaixador da Argentina para prestar esclarecimentos após críticas de MileiMilei chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”. Crédito: AFPOutros índices corroboram a queda e mostram que o presidente está em seu pior nível de aprovação desde que tomou posse em dezembro de 2023. Em 2027, a Argentina passará por eleições presidenciais em que Milei tentará a reeleição, e seu sucesso dependerá de os argentinos sentirem que sua vida melhorou. Com este cenário em casa, os jornais argentinos se perguntaram: por que abrir outra crise neste momento e com o maior parceiro comercial do país?Para analistas, ainda que seja difícil cravar que a crise seja produto de um cálculo político, já que Milei é verborrágico por natureza, ela funciona como uma cortina de fumaça para os problemas do presidente.PublicidadeAntes da Copa do Mundo, Milei vivia um inferno astral, com a inflação – o maior pesadelo argentino – dando sinais de que poderia voltar a subir, queda de popularidade e três escândalos de corrupção consecutivos – um envolvendo ele próprio, outro sua irmã e o último com seu porta-voz que terminou saindo do governo . Antes da Copa, ele não teria escalado a tensão com o Brasil, de jeito nenhum, justamente por estar tão fragilizado. Mas agora, depois da Copa, as coisas mudaram. A crise do escândalo Adorni [o porta-voz] já passou. Então, é como se ele estivesse retomando a iniciativa e buscando, acima de tudo, um inimigo externo. Facundo Galván, professor na Universidade de Buenos AiresPouco após o Mundial, do qual a Argentina saiu vice-campeã em meio a discussões nas redes sociais sobre episódios racistas envolvendo sua torcidas, Milei disse, sem provas, que os governos do Brasil e do México e o Partido Democrata dos EUA financiaram uma campanha nas redes contra o país. PUBLICIDADEMilei acusa Brasil, México e democratas dos EUA de financiar ‘campanha anti-argentina’Sem fornecer mais dados para respaldar suas acusações, o presidente argentino acentuou as críticas por ser impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Crédito: AFP“Milei tem o hábito de republicar conteúdos sem sempre saber se foram devidamente checados. Ele próprio admitiu ter retuitado a postagem sobre a $LIBRA sem verificá-la. Portanto, ele retuitou aquilo, e acredito que, ao fazê-lo, queria resolver ou justificar a disputa com Lula”, opina Galván, citando o caso da criptomoeda $LIBRA que o presidente promoveu e que fez os argentinos perderem dinheiro. Ele é investigado pelo caso.Visita de Lula a CristinaOutro ingrediente da crise é a proximidade entre Lula e a ex-presidente Cristina Kirchner. Quase exatamente um ano atrás, em 3 de julho de 2025, Lula aproveitou sua viagem para Buenos Aires para a cúpula do Mercosul e visitou a líder peronista, em prisão domiciliar. A visita também criou atritos com Milei na época, mas não a ponto de gerar uma crise diplomática como a de agora.PublicidadePresidente Luiz Inacio Lula da Silva em visita à ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar, em julho de 2025 Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da RepúblicaA visita havia sido autorizada pela Justiça argentina, ao contrário do caso de Milei, cujo pedido ao STF foi rejeitado. “Lula chegou a visitar Cristina na prisão. Como não pôde visitar Bolsonaro, Milei reage de forma exagerada. Parece-me que tudo isso tem a ver, em parte, com defender aquelas ideias antissistema que ele propõe. Só que ele faz isso à sua própria maneira, e de um jeito que pelo senso comum é totalmente desagradável”, afirma Lourdes Puente, professora da Universidade Católica Argentina (UCA).Essa crise tem mais a ver com a ambição dele de liderar o ‘trumpismo’, por assim dizer, aqui no Sul e de exagerar nesse papel. Vejo a questão mais por esse prisma. Parece-me pouco provável que este governo tenha uma estratégia para essas questões, porque a única área em que eles realmente têm uma estratégia, um propósito claro e realizam um trabalho sério é a macroeconomia.Lourdes Puente, professora da Universidade Católica Argentina (UCA)Ao não medir as palavras e as consequências que elas teriam, o presidente aposta na impunidade prática que isso tem, argumenta a professora. Apesar de ter criado uma crise diplomática, ela muito dificilmente se transformaria em rompimento de laços entre dois parceiros comerciais tão essenciais.“Se for do seu interesse, ele engole o orgulho e vai apertar a mão [de Lula], se precisar”, sugere Lourdes Puente, lembrando que Milei fez o mesmo – e até pior – com a China. “Mas ele deve ter concluído que não precisa do presidente para manter o relacionamento com o Brasil. Afinal, os laços existentes permanecerão, independentemente de ele entrar em conflito com o líder brasileiro ou não. O problema é que ele transforma questões de política externa em assuntos pessoais.”“É bem possível que mais tarde possa haver um gesto conciliador ou uma guinada em direção à moderação. Não me surpreenderia se, em alguns meses, ele estivesse negociando algo lado a lado com Lula”, concorda Facundo Galván. É uma leve alfinetada na visita de Lula a Cristina, um aceno ao campo bolsonarista e um reflexo de seu estilo característico de retórica politicamente incorreta. Combine esses três fatores e você terá a receita para desencadear uma crise diplomática desnecessária em três anos. Facundo Galván, professor na Universidade de Buenos AiresMilei não esconde que torce pela vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras, o que coroaria a guinada à direita da América do Sul. Depois da visita a São Paulo, o argentino voou para o Peru, onde prestigiou a posse de Keiko Fujimori. “Milei se beneficia que México e Brasil, os dois países mais poderosos da América Latina, são atualmente liderados por figuras fortemente antiamericanas e muito de esquerda. Isso faz dele a principal referência para a região”, afirma Galván.Publicidade“Mas ele precisa manter essas parcerias e, se Bolsonaro vencesse, isso também poderia servir para outros tipos de planos, talvez para formar alianças ou realizar ações que não são possíveis no momento”, conclui o professor da UBA.