Sem apresentar provas ou dar detalhes, mandatário afirma que a campanha contra a Argentina também estaria sendo financiada pelo Partido Democrata dos Estados Unidos Declarações de Milei levaram o Planalto a convocar o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli — Foto: Natacha Pisarenko/AP O presidente da Argentina, Javier Milei, acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de estar por trás de uma "campanha anti-Argentina", em um novo ataque após a crise diplomática desencadeada por sua participação na convenção que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto. Em entrevista à rádio Mitre, Milei afirmou, sem apresentar provas ou dar detalhes, que a campanha contra a Argentina também estaria sendo financiada pelo Partido Democrata dos Estados Unidos e que seria uma consequência do alinhamento da Casa Rosada com os governos de Donald Trump, nos EUA, e de Benjamin Netanyahu, em Israel. "Sabe quem mais colocou dinheiro nesta campanha anti-Argentina? O governo do Brasil. Vinte e cinco por cento dos recursos vieram de lá. E depois eles vêm falar de interferência", afirmou Milei. "Além disso, [os brasileiros] desempenharam um papel muito ativo na campanha de 2023. Ou vocês já se esqueceram de que os assessores de [Sergio] Massa eram um grupo de brasileiros enviados por Lula? Eles participaram ativamente daquela campanha." "Somos o farol da liberdade", afirmou Milei, em referência aos governos alinhados à direita. "Estamos colocando em xeque a política desses ladrões que se escondem atrás do Estado para roubar as pessoas. Eles estão nervosos porque está sendo demonstrado que, se você tira o Estado do caminho, as pessoas prosperam." No evento em São Paulo, ao lado de Flávio Bolsonaro, Milei atacou Lula, chamando-o de "ladrão" e "presidiário", e também o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem classificou como um "lixo careca" por ter barrado uma visita do líder argentino ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso em regime domiciliar em Brasília após ser condenado por tentativa de golpe de Estado. "Quis ir ver meu amigo Jair Bolsonaro e não me deixaram, mas aqui o ex-presidiário veio cumprimentar a presidiária, não é? Ninguém o proibiu de nada. No entanto, não me deixaram visitar meu amigo, que, além disso, está injustamente preso", acrescentou Milei, em referência a Lula e à ex-presidente Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar e foi visitada pelo presidente brasileiro em 2025. As declarações de Milei levaram o Palácio do Planalto a convocar para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, e provocaram reações de diferentes autoridades do país, que condenaram os ataques do presidente argentino a Lula e ao STF. A crise também repercutiu na imprensa argentina. O Clarín afirmou que a tensão diplomática com o Brasil "está mais alta do que nunca" após o que classificou como "fortes ofensas" de Milei a Lula. O La Nación lembrou que este não foi o primeiro episódio em que um país convocou seu embaixador para consultas durante o governo Milei, recordando a crise com a Espanha, após o presidente argentino acusar a mulher do primeiro-ministro Pedro Sánchez de corrupção durante um evento do partido de extrema direita Vox, em Madri. Já o portal Todo Noticias destacou que a crise ainda estava restrita às relações entre os presidentes, mas ameaçava "transcender o Executivo" e atingir as relações entre os dois Estados. Mais cedo, o governo argentino já havia acusado Lula de interferir na política do país por causa da visita a Cristina Kirchner. "Em julho de 2025, dois meses antes das eleições legislativas na Argentina, Lula desembarcou no país, evitou qualquer encontro com o presidente Milei e foi diretamente visitar e abraçar a ex-presidente condenada Cristina Kirchner. A visita funcionou como uma clara intromissão nos assuntos políticos internos, à qual se somaram comentários deploráveis de desprezo do presidente brasileiro pelas instituições e pelo Judiciário argentino", afirmou a Casa Rosada em publicação na rede X, em resposta a um deputado da oposição que criticou a postura de Milei no Brasil. O governo argentino também relembrou episódios anteriores envolvendo Lula e Milei. Segundo a Casa Rosada, o presidente brasileiro afirmou, em 2025, que Milei havia dito "muitas bobagens" e "estupidezes" e, posteriormente, integrantes do governo brasileiro também fizeram ataques ao presidente argentino. O comunicado cita declarações do atual secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, que teria chamado Milei de "imbecil" e de "o presidente mais rejeitado da América Latina". Também menciona que o ex-ministro Paulo Pimenta classificou Milei como "criminoso". A Casa Rosada ainda reiterou uma acusação feita por Milei de que Lula tentou interferir na política argentina em 2023, após as eleições primárias (PASO), ao enviar consultores brasileiros ligados ao PT para auxiliar a campanha presidencial de Sergio Massa. Segundo a nota, o objetivo da equipe era promover uma campanha negativa contra Milei, disseminar medo entre os eleitores e conter o avanço do então candidato libertário. O governo argentino classificou a iniciativa como uma tentativa de "interferência estrangeira", que, segundo o comunicado, fracassou quando Milei foi eleito no segundo turno. A nota termina defendendo a legitimidade do governo Milei, afirmando que o presidente "diz as coisas de frente, assume o custo de seus atos e governa", e sustenta que seu projeto político foi ratificado nas urnas nas eleições legislativas de 2025, nas quais seu partido, o La Libertad Avanza, saiu vitorioso. Em um recado ao deputado Pablo Juliano, destinatário da publicação, a Casa Rosada afirmou que ele não deveria "ficar ao lado dos operadores que cruzam a fronteira para semear pânico" na Argentina e acusou a "extrema esquerda" de tentar influenciar eleições de outros países, atacar as instituições e criticar o sistema judicial argentino.
Milei acusa Lula de estar por trás de 'campanha anti-Argentina'
Sem apresentar provas ou dar detalhes, mandatário afirma que a campanha contra a Argentina também estaria sendo financiada pelo Partido Democrata dos Estados Unidos












