Investidas de Lula na Argentina não justificam tom belicoso e xingamentos em discurso de apoio a Flávio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente argentino Javier Milei durante convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo As desavenças ideológicas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei são profundas e estarão sempre sujeitas às intempéries políticas. Mas não podem atrapalhar a relação diplomática entre Brasil e Argentina, tão importante para os dois países e para o continente sul-americano. Daí a preocupação com os efeitos do discurso destemperado de Milei na convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo, que sacramentou no sábado a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. No longo pronunciamento de apoio a Flávio, Milei adotou um tom agressivo e malcriado, incompatível com o esperado de um chefe de Estado. Atacou Lula, a quem se referiu como “presidiário”, e xingou de “lixo” o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Recentemente, Moraes o proibiu de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem Milei chamou de “amigo injustamente encarcerado”. “Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández”, disse. Milei saiu do tom não apenas nos ataques, mas na atitude belicosa e no linguajar. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou que o xingamento a Moraes foi “desrespeitoso” e “incompatível com a civilidade”. Lula disse que quem venha de fora “meter o dedo” nas eleições brasileiras vai “apanhar muito”. Até o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se manifestou em tom inadequado chamando Milei de “palhaço”, embora não tivesse nada a ver com o assunto nem devesse se pronunciar sobre o tema. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” ao ocorrido e convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. O presidente da Argentina pode ter afinidade política com quem quiser, mas não deveria se imiscuir na política brasileira. É certo que o caso tem precedentes, tão descabidos quanto. Em 2023, Lula enviou estrategistas de campanha à Argentina no intuito de ajudar a candidatura governista de Sergio Massa à Presidência. Massa, que acabaria derrotado por Milei, também se encontrou com Lula em Brasília para tratar das eleições argentinas. Em 2025, o petista aproveitou a estadia em Buenos Aires durante reunião de cúpula do Mercosul para condenar a prisão da ex-presidente Cristina Kirchner por corrupção, misturando os papéis de chefe de Estado e militante político. Pior: posou com ela e depois ao lado de um cartaz “Cristina livre”, num flagrante desrespeito às decisões da Justiça local. Milei disse que “não esqueceria” o que fez Lula. Evidentemente, o erro de um não justifica o do outro. Divergências políticas entre governos são legítimas, mas precisam ser conduzidas dentro do respeito, da civilidade e dos protocolos diplomáticos. Atacar um ministro do STF que nada tem a ver com as disputas eleitorais e lançar mão de xingamentos e atitudes agressivas contra autoridades em solo brasileiro são atitudes inaceitáveis. Brasil e Argentina são parceiros importantes não apenas no comércio. Os desdobramentos do episódio, com a escalada de críticas de um lado e de outro, só pioram o clima. É hora de serenar os ânimos. Nenhum dos lados tem nada a ganhar com a deterioração das relações diplomáticas. Lula e Milei não são maiores que seus países.