A participação de Javier Milei na convenção que lançou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro abriu um novo capítulo de tensão entre Brasil e Argentina. No palanque, o presidente argentino atacou Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, transformando um evento partidário brasileiro em palco para sua política externa ideológica. Em entrevista a CartaCapital, o jornalista argentino Martín Granovsky classificou a atitude como uma interferência sem precedentes. “Nunca vi uma coisa desta”, afirmou.

Para Granovsky, o episódio é especialmente grave porque ultrapassa o terreno das provocações eleitorais. Brasil e Argentina são os principais sócios do Mercosul, e o mercado brasileiro tem importância decisiva para a indústria argentina. Enquanto outros parceiros compram sobretudo produtos primários, o Brasil é um dos poucos destinos relevantes para as manufaturas do país vizinho. Uma crise prolongada, portanto, pode atingir não apenas a diplomacia, mas também o comércio, os investimentos e os empregos dos dois lados da fronteira.

Na avaliação do jornalista, a presença de Milei no evento bolsonarista também deve ser compreendida a partir de seu alinhamento automático com os Estados Unidos e Israel. O presidente argentino aposta na proximidade com Donald Trump como forma de fortalecer seu projeto político e garantir apoio externo para as eleições de 2027. Nesse movimento, a tentativa de favorecer uma candidatura da família Bolsonaro no Brasil faria parte de uma estratégia regional da extrema direita, baseada menos na cooperação entre Estados e mais na convergência entre lideranças ideologicamente alinhadas.