"O Brasil é o que mais perdeu entre todos os países, em termos de tarifas", disse o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil O novo tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos tomou um caráter majoritariamente político e colocou o Brasil em posição difícil frente ao resto dos parceiros comerciais americanos, na avaliação de José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). "O tarifaço é um processo que é, ao mesmo tempo, ideológico, técnico e político. Dependendo do ator, a análise tem foco diferente. O Brasil, com certeza, é o único que perdeu, não há dúvidas. É o que mais perdeu entre todos os países, em termos de tarifas", diz. No caso, o especialista destaca que o Brasil pode se tornar o segundo país com a maior taxa média efetiva, atrás apenas da China, a partir de 22 de julho, quando serão aplicadas as tarifas. Para Castro, a nova ofensiva do governo americano se soma ao custo elevado que as empresas enfrentam no Brasil, principalmente por conta dos juros elevados e falta de investimento em exportações. "Agora, com o tarifaço, você tem o 'custo Brasil' somado ao tarifaço. Isso faz com que basicamente seja quase impossível exportar para os EUA. O que exportamos aos EUA? Tirando aviões, que é um caso à parte, são operações de intercâmbio, ou seja, entre matrizes e filiais", afirma. O presidente da AEB ainda avalia que tanto o Brasil quanto os Estados Unidos têm "ultrapassado os limites de um bom relacionamento comercial". No caso, ele destaca que posições políticas tem se sobreposto às negociações. "Estamos entrando num aspecto puramente político, em que cada uma faz a avaliação de acordo com o aspecto político, não de acordo com o aspecto técnico, que é o que o Brasil gostaria". "A gente reconhece que o Brasil também não fez a parte dele. Nós também deixamos de fazer a nossa parte (...) Foi feita uma proposta sabendo que ela não seria analisada tecnicamente, na prática ela seria analisada politicamente e com isso não retornaria em nada", afirma. Para Castro, o contexto pedia que o governo demonstrasse força interna perante os Estados Unidos, mas a resposta política não foi exitosa. "A forma de mostrar força foi falar algumas coisas que estavam fora do contexto. Com isso, o Brasil está pagando um preço hoje. Tanto Trump, quanto Lula, estavam com os pés trocados. Aí não adianta buscar culpados". O especialista também destaca que produtos manufaturados que entraram na taxação tendem a ter mais dificuldade do que commodities. O Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) rejeitou os pedidos de isenção de etanol, calçados, móveis, tabaco, açúcar, papel, vidros, máquinas agrícolas e industriais, perfumaria e vestuário. "No agronegócio podemos dizer que o Brasil é competitivo até a porteira, da porteira para fora ele perde a competitividade. Já no manufaturado, perdemos a competitividade antes e depois da porteira", explica. Como exemplo, ele afirma que a aplicação da reforma tributária deve ajudar, mas é insuficiente para reduzir os custos de produção e aumentar a competitividade dos produtos manufaturados brasileiros. "Como é que eu vou concorrer com a China, Coreia, Indonésia, e demais países do Sudeste Asiático, que têm um custo menor? Nós temos um custo muito alto. Só isso já faz com que nós tenhamos dificuldade de ofertar produtos manufaturados", afirma. José Augusto de Castro, presidente da AEB — Foto: Leo Pinheiro/Valor