EUA colocam novas tarifas sobre o BrasilTarifaço ganha tom político e tem minado comércio entre os dois países. Gerando resumoApesar de amplamente esperada, a medida anunciada pelo governo dos Estados Unidos de impor uma taxa de 25% sobre alguns produtos brasileiros – já que há uma grande lista de exceções – trouxe uma nova leva de preocupações aos setores afetados. “A elevação de tarifas tende a aumentar custos, reduzir competitividade, comprometer investimentos e afetar a eficiência das cadeias produtivas instaladas nos dois países, produzindo efeitos que vão além da relação comercial bilateral”, disse a diretora executiva de mercado externo da Abimaq, Patrícia Gomes – entidade que representa as empresas do setor de máquinas e equipamentos, o mais afetado pelo tarifaço.PUBLICIDADEAs empresas do setor têxtil, outro fortemente afetado pelas medidas que entram em vigor na próxima quarta-feira, 22, também expressaram seu temor com os efeitos da tarifa. A Abit, associação do setor, afirmou que medidas dessa natureza ampliam a insegurança no comércio internacional, reduzem a competitividade das empresas e podem afetar investimentos, produção, emprego e a integração das cadeias produtivas. Apesar de considerar completamente equivocada a decisão do governo de Donald Trump, o caminho da negociação continua sendo defendido pelas empresas afetadas, que temem o que poderia vir com uma radicalização por parte do governo brasileiro – com a aplicação da Lei da Reciprocidade, por exemplo. “Respostas motivadas por embates políticos tendem a gerar apenas novos aumentos tributários, insegurança jurídica e custos adicionais”, disse o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles.PublicidadeIndústria de máquinas e equipamentos será a mais afetada Foto: Jonne Roriz/EstadãoApesar disso, o governo brasileiro fez questão de afirmar que a retaliação à medida americana está no radar. Em entrevista nesta quinta-feira, 16, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo saberá como implementar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos “no momento adequado”. Segundo ele, a legislação oferece mecanismos para que o Brasil responda a medidas consideradas discriminatórias adotadas por outros países.Veja a seguir como os principais setores afetados reagiram ao novo tarifaço:PublicidadeSetor de máquinas e equipamentos quer que governo evite postura de retaliaçãoSegundo estudo da MB Associados, o setor mais afetado pelo novo tarifaço é o de máquinas e equipamentos. Mesmo assim, a Abimaq espera que a retaliação seja evitada, segundo a diretora executiva de mercado externo da associação, Patrícia Gomes.“A intenção é fortalecer o diálogo e evitar uma eventual decisão de retaliação do governo. Achamos que não é o caminho”, afirmou. A expectativa, também, é de que o governo ponha à mesa instrumentos que possam mitigar os impactos sobre os setores afetados. “O (programa) Brasil Soberano não deve ser suficiente e tem o Reintegra, que está em tramitação e precisa de uma decisão”, disse.Antes da aplicação das tarifas, especialistas já apontavam uma ampliação do Plano Brasil Soberano, iniciativa que libera linhas de crédito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para ajudar a amortecer os efeitos sobre o setor exportador e que já havia sido lançada no primeiro tarifaço, em 2025. Já o Reintegra é um regime especial de valores tributários para exportadores, funcionando como um cashback governamental, em que devolve parte dos tributos pagos ao longo da cadeia para desonerar as exportações.PublicidadeSegundo Patrícia, a expectativa é de que o setor como um todo prossiga com as negociações para pleitear novas isenções das sobretaxas americanas. A Abimaq considera que as novas taxas preocupam e adicionam incerteza para o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos. Para o setor de máquinas e equipamentos, os EUA representam o principal mercado de exportação. Em 2025, lembra a entidade, as exportações brasileiras de máquinas e equipamentos para os EUA alcançaram aproximadamente US$ 3,2 bilhões, enquanto as exportações americanas para o Brasil totalizaram cerca de US$ 4,8 bilhões. “Evidencia uma relação de benefícios mútuos e forte interdependência produtiva”, afirma a Abimaq.Para setor de etanol, decisão dos EUA desconsidera o desequilíbrio no comércio bilateral A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) lamentou a decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifas adicionais sobre o etanol brasileiro e afirmou que a medida desconsidera as regras do comércio internacional e as assimetrias existentes na relação comercial entre os dois países. PublicidadeEm nota, a entidade reiterou que a política tarifária brasileira para o biocombustível está em conformidade com as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e defendeu que a solução para o impasse passe pelo diálogo entre os governos.Segundo a Unica, a política brasileira para o etanol é aplicada “de forma não discriminatória e em conformidade com os compromissos multilaterais assumidos pelo Brasil”. A entidade destacou ainda que não há qualquer acordo bilateral que obrigue o País a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol norte-americano.Indústria do etanol diz que Brasil respeita as regras da OMC Foto: Thiago Teixeira/EstadãoA associação também contestou a avaliação de que a redução das exportações dos Estados Unidos para o mercado brasileiro decorra de barreiras comerciais. De acordo com a entidade, a queda das vendas é explicada principalmente pelo crescimento da produção nacional, em especial do etanol de milho, e não por mudanças na política tarifária brasileira.PublicidadeA entidade argumentou ainda que a decisão do governo norte-americano ignora o desequilíbrio existente no comércio bilateral de produtos do setor sucroenergético. “As exportações brasileiras de açúcar permanecem sujeitas às tarifas e restrições de acesso impostas pelos Estados Unidos, enquanto o Brasil mantém uma política não discriminatória para o etanol, em conformidade com as regras do comércio internacional”, afirmou.A Unica disse também confiar na atuação do governo brasileiro nas negociações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos. E defendeu “soluções baseadas no diálogo, na previsibilidade regulatória, no respeito às regras do comércio internacional e na cooperação entre os dois países”.Abicalçados vê retrocesso em tarifaço e revisa para baixo projeção de exportaçõesA Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) manifestou preocupação com a decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar tarifa adicional de 25% sobre importações de produtos brasileiros, incluindo calçados.Com a nova tarifa, a Abicalçados revisou sua projeção para as exportações totais de calçados em 2026, estimando queda média de 7,1%, piora de 3,5 pontos porcentuais em relação à previsão anterior, de retração de 3,6%.“A aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano”, afirmou o presidente executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira. Ele disse que a medida penaliza também importadores, marcas, varejistas e consumidores americanos.A Abicalçados afirmou que atuou em articulação com o governo federal e entidades do setor nos EUA e que participou de audiência pública do USTR em 7 de julho, em Washington, com argumentos sobre os impactos da tarifa. A entidade destacou que os EUA consomem mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produzem cerca de 20 milhões de pares.PublicidadeLeia tambémTarifômetro: confira as taxas a exportações que Trump já anunciou, quais estão em vigor e até quandoNovo tarifaço de Trump afeta 25% das exportações do Brasil para os EUA, aponta estudo; veja impactoNovo tarifaço atingirá 18% das exportações brasileiras aos EUA, ou US$ 7,4 bi, diz ministroIndústria têxtil teme perda de competitividade e de empregosA Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) manifestou preocupação com a decisão do governo dos Estados Unidos e defendeu que eventuais divergências comerciais sejam solucionadas por meio do diálogo institucional e dos mecanismos previstos no sistema internacional de comércio.Em nota, a Abit afirmou que medidas dessa natureza ampliam a insegurança no comércio internacional, reduzem a competitividade das empresas e podem afetar investimentos, produção, emprego e a integração das cadeias produtivas. A entidade ressaltou que Brasil e Estados Unidos mantêm uma relação comercial construída ao longo de décadas, marcada pelo diálogo e pela complementaridade entre diversos setores.A associação defendeu também que as divergências comerciais sejam tratadas por meio de negociações entre os governos, preservando o fluxo de negócios e os interesses de ambos os países. Também destacou que o atual cenário internacional, de maior fragmentação geoeconômica e uso crescente de instrumentos de política comercial, reforça a necessidade de o Brasil avançar em sua agenda de competitividade, ampliar mercados, diversificar exportações e fortalecer sua base industrial.PublicidadeIndústria da madeira ainda tentava se recuperar das tarifas de 2025Outro setor fortemente afetado pelo novo tarifaço de Trump é a indústria da madeira. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), a decisão representa um duro impacto para o setor madeireiro que ainda buscava se recuperar após as tarifas aplicadas no ano passado pelos Estados Unidos. “A perda de competitividade decorrente dessas novas tarifas compromete a continuidade de negócios construídos ao longo de décadas com os Estados Unidos e coloca em risco investimentos, a produção e postos de trabalho”, diz a entidade, em nota. Para a Abimci, “uma relação comercial tão estratégica quanto a mantida entre o Brasil e os Estados Unidos deveria ser conduzida com base em critérios técnicos, econômicos e comerciais. No entendimento da associação, diante da relevância econômica e social dessa pauta, seria necessária uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática, para evitar um resultado que penaliza diretamente a indústria brasileira de madeira processada.” A associação reforçou a relevância dos produtos brasileiros para o mercado norte-americano, sua complementaridade em relação à produção local, a inexistência de concorrência direta com a indústria dos Estados Unidos e a dificuldade de substituição por fornecedores de outros países.Publicidade“A Abimci cumpriu seu papel técnico e institucional durante todo o processo e espera que o governo brasileiro conduza, com urgência e prioridade política, uma negociação capaz de reverter esse cenário, preservar a indústria nacional, proteger postos de trabalho e restabelecer as relações comerciais com os Estados Unidos”, disse. /Gabriela Jucá, Leandro Silveira, Luísa Laval e Tânia Rabello