Retaliação brasileira a tarifaço pode gerar guerra comercial com os EUABrasil não tem mesma envergadura de China e Canadá para entrar num embate com os americanos. Crédito: TV EstadãoNos últimos minutos do último dia, o Representante Comercial dos EUA (USTR) finalmente divulgou o resultado da investigação da Seção 301 contra o Brasil. A tarifa adicional será de 25% sobre importações brasileiras, com uma lista extensa de exceções. Entra em vigor em 22 de julho. Não é apocalipse comercial, mas tampouco marolinha diplomática.PUBLICIDADEIniciada há um ano, a investigação cobre sobre temas variados, que em tese discriminam empresas norte-americanas: comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais, corrupção e desmatamento. A lista é tão heterogênea que parece ter sido montada por um comitê que começou discutindo o Pix, encontrou o etanol, tropeçou na Amazônia e terminou na alfândega.Apesar das tentativas de negociação, o USTR manteve a tarifa em 25% sobre as exportações brasileiras. A justificativa jurídica foi calibrada para tentar sobreviver a futuras ações judiciais. A Seção 301 permite ao governo norte-americano retaliar práticas consideradas discriminatórias e permite atingir setores que nada têm a ver com a prática investigada. É difícil explicar como uma tarifa sobre calçados ou manufaturados corrige supostos problemas relacionados ao Pix ou a decisões judiciais brasileiras. Mas a medida não foi desenhada por lógica jurídica, e sim para criar pressão comercial.Governo de Donald Trump iniciou a investigação há mais de um ano Foto: Saul Loeb/AFPOs efeitos sobre a economia brasileira serão relevantes, mas não uniformes. Não haverá colapso de exportações nem tragédia no índice de emprego. O Brasil continuará exportando commodities para o mundo, e a balança comercial deste ano deve fechar com saldo elevado, empurrada pelos preços internacionais.Mas haverá preocupações concentradas em segmentos e regiões específicas. Os maiores riscos recaem sobre manufaturados dedicados ao mercado norte-americano: calçados, móveis, têxteis, partes, peças, equipamentos e bens de consumo. Com maior impacto em clusters industriais do interior de Santa Catarina, do Paraná e da Serra Gaúcha, onde empresas dependem de linhas de exportação construídas durante anos para clientes dos EUA. Subsidiárias norte-americanas instaladas no Brasil poderão deixar de exportar partes e equipamentos para suas matrizes. Algumas fábricas locais tentarão redirecionar vendas ao mercado interno. Outras buscarão terceiros mercados. É mais difícil para produtos de consumo com desenho, marca, certificação e logística pensados especificamente para o mercado norte-americano.PublicidadeO próprio USTR reconheceu esses limites ao criar exceções relevantes. Ficaram fora da tarifa – numa longa lista de exceções – alimentos, alguns produtos de madeira, minerais, fertilizantes, produtos químicos, farmacêuticos, celulose, aeronaves e partes aeronáuticas. Também foram excluídos produtos já sujeitos a medidas da Seção 232, como aço, alumínio, cobre, veículos, caminhões, semicondutores e certos produtos de madeira. Produtos cuja tarifação poderia gerar falta de abastecimento, aumento de custos ou falta de suprimentos para a indústria norte-americana.Leia também Retaliação brasileira a tarifaço pode gerar guerra comercial com os EUAGoverno repudia tarifaço, fala em acionar lei de reciprocidade e responsabiliza família BolsonaroAo Brasil, restam quatro caminhos. Nenhum é simples.O primeiro, obviamente, é continuar negociando. A diplomacia brasileira participou de horas de reuniões técnicas. Fez o que era possível dentro de um ambiente contaminado por pressões eleitorais e por uma agenda dos EUA sobrecarregada por negociações com China, Índia, Europa e outros parceiros. O segundo é diversificar mercados. Objetivo fácil de escrever e penoso para executar. Mas, inevitavelmente, exportadores precisam mapear compradores alternativos, adequar certificações, rever logística, adaptar produtos e usar instrumentos de promoção comercial com mais agressividade.O terceiro é acelerar acordos de livre comércio. Os acordos recentes com União Europeia, EFTA, e as negociações com Canadá, México, Emirados, países asiáticos e parceiros estratégicos ganham relevância e urgência.PublicidadeO quarto é apoiar setores exportadores mais afetados. Trata-se de preservar capacidade produtiva, emprego regional e inteligência industrial enquanto se reestruturam as cadeias e os destinos.PUBLICIDADEQuanto à relação bilateral Brasil-EUA, haverá provavelmente uma negociação longa, tensa e plena de ameaças recíprocas. A Lei de Reciprocidade brasileira será inevitavelmente lembrada. O caso na OMC ganha fôlego. Exportadores e importadores seguramente vão judicializar uma investigação questionável. E os calendários eleitorais – nos dois países – tornarão o tema mais ruidoso.No fim, o Brasil não deve confundir indignação com estratégia. A tarifa norte-americana é injusta em vários pontos e juridicamente frágil em outros. Mas indignar-se não exporta. O caminho é negociar, diversificar mercados, proteger os setores mais expostos e acelerar acordos comerciais. A geopolítica voltou a cobrar pedágio; e a estrada do comércio internacional, no futuro visível, não voltará a ser plana nem previsível.
Opinião | Novo tarifaço dos EUA não é apocalipse comercial, mas tampouco marolinha diplomática
Os maiores riscos recaem sobre manufaturados dedicados ao mercado norte-americano: calçados, móveis, têxteis, partes, peças, equipamentos e bens de consumo















