O País foi surpreendido pelo anúncio de novas imposições de tarifas norte-americanas sobre as exportações brasileiras para aquele mercado. Depois que a Suprema Corte derrubou as tarifas de 50% impostas no ano passado, decidindo que sua base legal não era apropriada, os EUA lançaram mão do Trade Act de 1974, criando duas alíquotas: 25% e 12,5%. PUBLICIDADEAs justificativas não são as mais sólidas possíveis, mas, como costuma ocorrer, falamos aqui de decisões à busca de algum amparo legal, que inclui temas tão diversos como o Pix, desmatamento e corrupção. A ideia, claro, é “reindustrializar” os EUA por meio de tarifas, projeto que tem tudo para dar errado.Independentemente de seus méritos — ou melhor, da falta deles —, resta saber o provável impacto sobre a economia brasileira. Não parece particularmente elevado, apesar da magnitude das tarifas, fundamentalmente pela combinação dos seguintes fatores: (a) as exportações aos EUA hoje representam cerca de 10% do total do país (eram 25% no início do século); (b) nem todas as exportações são afetadas, mas algo como metade delas; e (c) o Brasil permanece um país que pouco exporta relativamente ao tamanho da sua economia (as exportações para os EUA equivalem a apenas 1,4% do PIB).O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Foto: Mandel Ngan/AFPO que me preocupa são as demais repercussões para além do impacto direto (modesto) sobre o PIB, em particular a desmoralização da abordagem liberal ao comércio internacional. Não que o Brasil a tenha adotado em qualquer momento, muito pelo contrário (nossas barreiras tarifárias e não tarifárias são das maiores do mundo), mas sim porque a chance de alterarmos este estado de coisas se reduz (e muito) no contexto de um mundo mais fechado, em que o país historicamente mais investido na integração comercial muda dramaticamente de posição.Leia tambémUm verdadeiro hat trick: política para conter os combustíveis erra em todas as dimensõesDesenrolando o Desenrola: quais são as motivações e os custos ocultos do programa?‘Credo quia absurdum’: o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias se tornou um salto de féVida dura para quem, como eu (e outros), entende que o comércio internacional oferece caminhos visíveis para melhorar a produtividade em um país cujo produto por hora cresceu ao ritmo alucinante de 0,16% por ano entre o final de 2012 e o começo de 2026. A este passo, precisaríamos de algo como 440 anos para dobrar o produto por hora, principal fonte de crescimento sustentado, o que, francamente, me parece um pouco longo demais para minha idade.PublicidadeNeste contexto, falar em reciprocidade — apesar do afago no dolorido ego nacional — me soa como o proverbial tiro no pé. Entendamos que o impacto é modesto e vamos em busca de outros mercados, na esperança de que um dia os EUA voltem a acreditar nas ideias que fizeram deles a principal potência econômica do planeta.