Parceria entre exportadores do Brasil e importadores americanos é a melhor estratégia para pressionar Trump 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Porto de Santos, em São Paulo — Foto: Edilson Dantas / O Globo/ 13/04/2026 A política protecionista do presidente americano Donald Trump teve novo capítulo nesta sexta-feira, quando passou a valer uma tarifa de até 12,5% para 60 países, o Brasil inclusive. A alegação é de omissão na imposição e no cumprimento de proibição de importação de produtos feitos a partir de trabalho forçado. O argumento é que parceiros comerciais americanos compram produtos de países com práticas trabalhistas deletérias, incentivando a competição desleal e prejudicando os Estados Unidos. Entre os atingidos estão Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e a União Europeia (UE). A fragilidade das acusações é evidente, pois a maioria dos atingidos segue as regras internacionais, e não existe uma negligência disseminada em escala global. Para as mercadorias brasileiras, a última sobretaxa se soma aos 25% anunciados na semana passada, também com justificativas débeis. Ao governo brasileiro resta continuar buscando uma negociação aceitável. Os exportadores, porém, têm outra alternativa. Podem considerar a viabilidade de se associar a importadores americanos para questionar as decisões em tribunal nos Estados Unidos ou tomar outras medidas que façam Trump reconsiderá-las. No ano passado, ele impôs as barreiras do primeiro tarifaço, usando como base uma lei de emergência da década de 1970 que não mencionava o termo tarifas. Ao examinar a questão em fevereiro deste ano, a Suprema Corte tornou nulos os decretos de Trump. O presidente, segundo a maioria dos ministros, tinha extrapolado suas atribuições. Incansável na disposição de manter a agenda protecionista, a Casa Branca partiu para o plano B e recorreu à aplicação da seção 301 da Lei de Comércio, que autoriza o governo a apurar a existência de práticas desleais e prejudiciais. A partir de investigações realizadas por técnicos do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o governo decide o que fazer. Foi esse o caminho seguido na tarifa anunciada na semana passada e na de ontem. Para defender a imposição de sobretaxa de 25%, o USTR fez uma lista de acusações. Entre os alvos, o Pix. A instituição americana afirmou que o Banco Central brasileiro “desfavoreceu provedores de serviços de pagamentos eletrônicos dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que favorece seu sistema nacional”. Ora, tal interpretação não faz o menor sentido. Em relatório recente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) enalteceu o sistema de pagamento brasileiro, que descreveu como “catalisador de inclusão e concorrência”. Outro argumento usado pelo governo americano foi o desmatamento no Brasil, sendo que nos últimos anos tem havido uma redução drástica da área destruída. A judicialização, é verdade, tem os seus riscos. É pequeno o número de vezes em que medidas tomadas com base em análises do USTR foram revertidas. Processos no Tribunal de Comércio Internacional, que, apesar do nome, tem jurisdição apenas no território americano, podem resultar em custos altos e se estender por muito tempo. Tudo isso deve ser pesado. O caminho da Justiça pode ser tortuoso. O certo é que Trump só mudará de rumo por pressão interna. Por isso a aliança entre exportadores brasileiros e importadores americanos é a melhor estratégia à disposição.