Organizações venezuelanas e internacionais acusam o governo de dificultar ou impedir a entrada de ajuda humanitária em La Guaira, e citam burocracia excessiva e suspeitas de corrupção 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Morador discute com soldado venezuelano em La Guaira, em 1º de julho — Foto: Juan Barreto/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/07/2026 - 11:56 Denúncias de Bloqueio à Ajuda Humanitária na Venezuela Após Terremotos Grupos internacionais e venezuelanos denunciam que o governo da Venezuela está dificultando a entrada de ajuda humanitária em La Guaira após terremotos devastadores. A burocracia, suspeitas de corrupção e restrições a equipes de resgate são citadas como obstáculos. Relatos de corrupção e ineficiência na distribuição de ajuda aumentam a tensão, enquanto milhares enfrentam escassez de recursos básicos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO À medida que equipes de emergência tentam avançar com os trabalhos de busca por sobreviventes sob os escombros de prédios derrubados pelos dois terremotos que atingiram à Venezuela há pouco mais de uma semana, acumulam-se os relatos por parte de grupos internacionais e venezuelanos de que a condução da crise pelo governo chavista estaria dificultando a chegada de ajuda humanitária às regiões mais afetadas — incluindo burocracia excessiva, restrições a grupos específicos e cobrança de pagamentos por agentes públicos. Dezenas de organizações humanitárias e governos, incluindo o do Brasil, enviaram equipes técnicas e ajuda humanitária para a Venezuela, sobretudo para a região de La Guaira, a norte de Caracas, onde foi sentido o maior impacto. Embora muitos dos profissionais tenham sido incluídos às operações a esta altura — equipes de EUA, El Salvador, Costa Rica, Portugal, México e Chile participaram do resgate de um homem preso há oito dias sob escombros nesta quinta-feira —, alguns grupos denunciaram ter sido impedidos de chegar até o local. A ONG ISAR Alemanha, organização especializada em missões de busca, resgate e ajuda humanitária em cenários de desastres extremos, afirmou em uma publicação on-line que teve a "autorização de entrada negada" na Venezuela. Relatos reunidos pelo jornal americano Washington Post mencionam "obstáculos burocráticos árduos, estradas bloqueadas, postos de controle, exigências de pagamentos que pareciam propinas e restrições a jornalistas". Pouco depois dos terremotos e da constatação do cenário de crise, o governo venezuelano militarizou a região de La Guaira e limitou a entrada de pessoas na região. Diante de um fluxo intenso de pessoas que se apresentaram para auxiliar como fosse possível o trabalho de buscas, o governo passou a fazer uma triagem e emitir autorizações para os voluntários. A justificativa oficial foi de que a entrada de pessoas sem qualificação e em grande número na região poderiam dificultar os trabalhos técnicos e aumentar o risco de acidentes. Voluntários esperam em fila para tentar entrar em região atingida por terremoto em La Guaira, em 27 de junho — Foto: Juan Barreto Por outro lado, há quem duvide que o governo teme que a entrada de pessoas não coniventes com a administração chavista resulte em provas contra a resposta oficial — criticada pela mobilização lenta após os terremotos. Em Miami, o presidente da organização de exilados Veppex, José Antonio Colina, um militar reformado, acusou as Forças Armadas venezuelanas obstruírem o trabalho de socorristas venezuelanos e estrangeiros. Em uma publicação on-line na segunda-feira, o grupo de resgate chileno Topos Chile denunciou que autoridades venezuelanas interromperam repetidamente o trabalho de seus colaboradores para exigir documentos, alegando suspeita de que fossem "espiões". Veja imagens da destruição causada pelos terremotos em La Guaira Corrupção em tempos de escassez As irregularidades não teriam ficado restritas a um padrão elevado de fiscalização das equipes de resgate. Enquanto organizações internacionais, incluindo agências da ONU, alertam para escassez de comida, água e recursos básicos em La Guaira, há indícios de corrupção por parte de agentes públicos e falta de efetividade nas operações. Líderes de organizações da diáspora venezuelana nos EUA demonstraram preocupação neste sentido na quarta-feira, fazendo um apelo coletivo para que o governo americano não permitisse que o regime chavista ficasse a frente de um eventual programa de reconstrução — o que envolveria a gestão de somas bilionárias. Helene Villalonga, presidente da ONG de ajuda humanitária Amavex, afirmou ter recebido "relatos preocupantes" de irregularidades na distribuição de ajuda humanitária, enquanto a jornalista venezuelana Nigsi Alarcón levantou dúvidas sobre a ajuda enviada. — Estou preocupada porque ainda há muitas pessoas sob os escombros, e eles [líderes chavistas] só se importam em obter o máximo benefício do que enviamos para lá — disse a jornalista de 47 anos. Vídeos que se tornaram virais nas redes sociais mostraram como há agentes oficiais tirando vantagem da destruição. Quatro policiais venezuelanos foram presos após serem flagrados por moradores em posse de sacos com vários objetos retirados de casas afetadas, incluindo dinheiro em espécie. Enquanto isso, pessoas afetadas pela destruição reclamam da falta de medidas efetivas para aliviar suas dores, após perderem tudo nos terremotos. O governo contabiliza quase 13 mil desabrigados, número muito distante da estimativa da ONU, que aponta para até sete milhões de pessoas nessa condição. Quase 58 mil edifícios provavelmente ficaram danificados ou foram destruídos, segundo análises com base em observações de satélite da Nasa. — Aqui não estava chegando nada. Ontem à noite, começaram a nos trazer água — disse Fátima Berroterán, de 56 anos, moradora de um condomínio que sofreu danos graves em La Guaira, em entrevista à AFP. Descolados pelos terremotos buscam abrigo improvisado no complexo esportivo José María Vargas, em La Guaira — Foto: Federico Parra/AFP No complexo esportivo José María Vargas, perto do aeroporto internacional de Maiquetía, cerca de 1,7 mil pessoas que passaram a usar o local como abrigo noturno descreveram uma "luta" por recursos, incluindo comida. — Ontem saíram no tapa, tudo aqui é uma loucura, por isso é melhor evitar problemas — disse Daniela Armas, uma vendedora de 18 anos, que está no local com o namorado. — Aqui distribuem mantimentos, mas às vezes as pessoas brigam por comida (...) isso aqui parece uma rinha. Outra abrigada no ginásio, Yohana Álvarez, de 45 anos, disse a AFP que o funcionamento piorou com o decorrer da crise, e culpou os militares responsáveis pelo local pela desorganização. — Primeiro os próprios militares pegavam as coisas e depois sobrava o resto para nós — reclamou. (Com AFP e NYT)