O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre como organizações podem estar tão apegadas ao que foram no passado que não conseguem renovar a paixão dos funcionários Nesta Copa, me flagrei indiferente à seleção. Para mim, que tenho no futebol uma fonte de alegria e paixão, isso beira a heresia. Mas, ao me observar, entendi que o problema talvez não seja a indiferença, e sim a paixão antiga que insisto em cobrar. Continuo esperando o Brasil de 70 e 82, a beleza que inventamos e que nos tornou únicos. O mundo aprendeu e evoluiu o jogo; nós ficamos reféns da própria lenda, apaixonados por uma memória, incapazes de atualizar a relação com o presente. É um tipo curioso de desengajamento. Não é frieza, é o oposto: só fica refém do passado quem um dia amou demais. O futebol passa pelos afetos, tanto que memórias de jogos são usadas em terapias de reminiscência com pacientes de Alzheimer, alcançando o que parecia perdido. O problema é quando a memória vira gaiola, e a grandeza de ontem nos impede de amar e evoluir o que existe hoje. Levei essa imagem para o trabalho, porque vejo a mesma prisão nas organizações. O século XX inventou a corporação moderna, o emprego, a carreira, o organograma, a gestão por controle. Funcionou, nos trouxe progresso e foi exatamente esse sucesso que virou armadilha. Como a seleção, as grandes empresas seguem reféns de uma beleza que um dia foi real, gerindo o presente com os artefatos de um mundo que já não existe. Chris Argyris, nos anos 1960, em Harvard, ajudou a cunhar uma ideia que Denise Rousseau desenvolveria depois: a de contrato psicológico, o acordo tácito de expectativas mútuas que existe além do contrato formal de trabalho. O pacto que herdamos do pós-guerra era simples: estabilidade em troca de lealdade. Esse contrato morreu, substituído por um muito mais transacional: sucesso em troca de vitalidade. O atacante brasileiro Vini Jr. marca o terceiro gol do Brasil contra o Haiti na noite desta sexta-feira, 19 de junho de 2026 — Foto: James Lang/Reuters E ele morre quando o significado do trabalho está em profunda transformação. A inteligência artificial substitui tarefas e postos em ritmo inédito, e cresce a suspeita de que talvez não haja emprego formal para todos que o desejam. A renda básica universal deixa de ser utopia para virar pauta de governos. Mas o abalo é mais profundo do que econômico. Por séculos, o trabalho foi o eixo em torno do qual organizamos identidade, pertencimento e dignidade; é no que fazem que muitas pessoas encontram a resposta para quem são. Quando esse eixo se desloca, não é só a renda que fica em risco, é o sentido. E há os que o jogo sequer convida a entrar. A ironia, de novo iluminada pelo futebol: quem lotava os estádios e dava alma ao jogo eram os pobres, hoje sem condições de pagar o ingresso das arenas que os expulsaram. O esporte que se modernizou virou as costas para quem o tornou grande, como a economia que se moderniza descarta os trabalhadores que a ergueram. Cresce uma multidão de excluídos para quem a economia formal talvez nunca tenha lugar, e uma sociedade que não precisa do trabalho de todos terá de inventar outras formas de pertencer. Não por acaso, e talvez por falta de oportunidades, tanta gente passou a valorizar o empreendedorismo e a autonomia, mesmo que às vezes isso venha com a precarização das condições, como nas plataformas: na falta de um vínculo adequado com as organizações, as pessoas, atônitas, tentam escrever novos contratos. No limite, a própria ideia de organização entra em questão. A empresa do século XX, hierárquica, fechada, definida pelo emprego, se dissolve em redes, plataformas e arranjos fluidos. Talvez não estejamos diante do fim do emprego, mas do fim de um certo tipo de organização que confundimos com a única possível. Diante dessa virada, seria de esperar que as empresas repensassem o vínculo. A maioria, porém, faz o contrário: dobra a aposta no controle e maquia a relação com marketing. Sem conseguir honrar um contrato psicológico íntegro, importou do consumo a “marca empregadora” e o “employee value proposition”, tratando o colaborador como cliente a ser seduzido. É o show de intervalo, cheio de verde e amarelo e samba, mas sem alma, enquanto o time, em campo, segue jogando o futebol de resultados do século passado. Reengajar, no futebol ou no trabalho, não é restaurar o passado nem cobrar de volta a paixão perdida. É ter a coragem de atualizá-la: entender o que é essencial e merece ser preservado, e ousar mudar o resto. A seleção não voltará a ser a de 82, e a empresa não será a do organograma estável. O que se pode construir é um novo contrato, à altura deste século, em que autonomia, propósito e aprendizagem substituam a ilusão de controle. Porque ninguém permanece refém, por amor, de quem se recusa a mudar junto. Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie