A ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel. Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes –o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro "Remédio Veneno".

Praticamente reinventado por certa prontidão e jeito brasileiro de atuar, o futebol —parafraseando Wisnik— disse muito, com sua linguagem não-verbal, sobre algumas de nossas forças e fraquezas mais profundas, ajudando a ver sob outra luz questões centrais da formação e da identidade brasileiras.

De alguma forma Pelé, Garrincha, Didi, Romário e tantos outros coreografavam em campo as possibilidades de um país imaginoso, intuitivo e ao mesmo tempo eficiente e vencedor, que estaria construindo uma nacionalidade original, criativa, antropofágica e mestiça. Era o mesmo ethos nacional que se desenhava no território das artes, no samba, na bossa nova, na literatura, na arquitetura, no teatro.

Pois bem, tudo isso aconteceu. Não foi uma ilusão. Esses tijolos foram colocados. Pelé, João Gilberto, Tom Jobim estão lá. Fazem parte de nossas fundações, mas não voltarão mais. Não faremos novamente "Chega de Saudade", assim como os americanos não vão recompor seus gloriosos standards.