É um exercício de mergulhar no passado e projetar um futuro à altura. “Meu pai falava no Pelé, meu avô falava no Pelé. O Pelé é o princípio de tudo”, diz Romário, campeão do mundo em 1994. Refletir sobre a essência do futebol brasileiro. "Quando eu olho para trás, eu vejo 58, 62, 70, 94, 2002. Passa um filme na cabeça", diz Cafú. Da Seleção que venceu o “complexo de vira-latas” e conquistou cinco títulos mundiais. Repórter: Para ser jogador brasileiro com letra maiúscula tem que ter rua?Romário: Se eu não me engano, 90% do brasileiro teve rua, tem rua e vai continuar tendo. Série especial sobre a essência do futebol brasileiro destaca o talento dos nossos jogadores — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução Assim surgiu a lenda de uma camisa amarela. Em seis reportagens, a série do Jornal Nacional vai explorar tributos que ajudam a contar a história da única seleção pentacampeã mundial de futebol: ousadia, criatividade, raça, fé, união e, para começar, um tipo de talento que insiste em brotar nesse país. "Jogar futebol sempre foi uma coisa muito instintiva, é nato", afirma Romário. O primeiro supertalento do Brasil chegou à Copa da Suécia, em 1958, como reserva, sem chamar tanta atenção. Virou titular no terceiro jogo, contra a União Soviética, mas não fez gol. Dali para frente, o Pelé marcou seis vezes, duas na final contra os donos da casa, a coroação daquele menino rei aos 17 anos de idade. “Pelé é um monstro de qualidade e improvisação. Ele driblava para tudo quanto era lado, ele driblava até por dentro do adversário”, afirma Jairzinho, campeão do mundo em 1970. Quatro anos depois, no Chile, uma lesão na segunda partida tirou o Pelé do restante da Copa. Garrincha virou a estrela nem tão solitária do time. Com quatro gols e duas assistências, liderou o Brasil rumo ao bicampeonato mundial. “Esses dribles que o Garrincha dava, pelo que a gente vê, era praticamente impossível pará-lo. Se ele traz aquela técnica para hoje, também seria. Então, assim, não tem como falar do futebol, primeiro não falar do Pelé e, depois, desse cara aí”, afirma Romário. No tri, em 1970, no México, a Seleção Brasileira já não tinha Garrincha, mas teve uma última vez de Pelé. Cercado por craques que ele inspirou, o Rei marcou quatro vezes e deu seis passes para gol - três para o Jairzinho, o artilheiro do Brasil naquela Copa com sete gols. Aquela reunião incomparável de talentos deixou a impressão de um Brasil invencível. No entanto, nas cinco edições seguintes da Copa do Mundo, a qualidade dos jogadores não foi suficiente para Seleção vencer. “Os três mundiais que o Brasil ganha com o grande talento de Pelé e obviamente de Garrincha. Depois, o futebol mundial muda e começam a ganhar equipes muito fortes. O talento tem mais dificuldade a ganhar títulos solo, tem que ser ajudado da boa organização, sacrifício de todos os outros”, diz Carlo Ancelotti. Romário, campeão do mundo em 1994 — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução Foi com essa consciência tática e a pressão de 24 anos sem um título mundial que o Brasil chegou aos Estados Unidos em 1994. “Eu nunca fiz gol de bate-pronto, mas por acaso esse gol e aquele contra a Holanda foram movimentos assim que tinha que estar 100%, senão a bola não entraria”, conta Romário. Com uma assistência, para o Bebeto é claro, e cinco gols marcados, o Romário já tinha virado o cara daquela Copa antes mesmo da final contra a Itália, do Roberto Baggio. “'O Baggio está te olhando, está com medo’. Não, eu vou me colocar no lugar do Baggio. É um olhar de muito respeito, e eu também faria isso com ele”, diz Romário. Talento reconhece talento. Mas no maior dos palcos, a Copa do Mundo, ter o domínio completo do corpo e da bola não é garantia de vitória. Sob os olhos de centenas de milhões de pessoas, às vezes, a habilidade do craque é derrotada pelo medo. É preciso ser decisivo. Protagonismo também é talento. Na decisão por pênaltis, o protagonista do Brasil marcou. O da Itália, não. “Cara, essa hora aí foi o ápice da minha vida. Tipo, tudo aquilo que eu planejei, sonhei, imaginei lá atrás, eu consegui aí”, comemora Romário. Uma hora em que a cabeça vai longe, volta às origens. “Vai lá no Jacarezinho. Jogando com o meu pai na linha do trem de madrugada, quando eu não conseguia dormir e o meu pai me levava. Vai lá na Vila da Penha, no campinho que tinha lá embaixo, que meu pai sempre me levava para jogar. Cara bonito desde pequeno, né?”, lembra Romário. Série especial sobre a essência do futebol brasileiro destaca o talento dos nossos jogadores — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução Ver de perto, do campo, a consagração do Romário inspirou um garoto de 17 anos, Ronaldo, o último herói de um título mundial brasileiro. Ele marcou oito gols na campanha do penta, na Copa da Coreia do Sul e do Japão, em 2002. Nunca um jogador brasileiro fez tantos em uma edição do Mundial. E dois foram na final contra a Alemanha. “O Ronaldo era completo. Força, habilidade, fazia gol, inteligente”, opina Romário. E lá se vão 24 anos. Tempo de espera familiar à Seleção antes de aterrissar nos Estados Unidos para disputa de uma Copa do Mundo. Na busca pelo hexa, o Brasil também espera encontrar o talento desta geração. “Com o Neymar, existe uma possibilidade de o Brasil ser campeão. Porque é o talento nato que a gente tem nos últimos dez, 15 anos", afirma Romário. "Se esse cara está bem fisicamente, se esse cara está bem mentalmente, esse cara é o melhor disparado. Ele pode decidir a qualquer momento", diz Casemiro, meio-campo da Seleção. “Temos a sorte que temos muito talento. Dos primeiro cinco jogadores do mundo, hoje, dois são do Brasil”, afirma Carlo Ancelotti. "Agora, não adianta ter só o talento e não estar totalmente preparado para poder dar tudo o que você possa”, diz Romário. “Eu não posso treinar o talento, eu não posso melhorar o talento. Mas eu posso ajudar a manejar o talento”, diz Carlo Ancelotti. “Que nós treinadores possamos ter a sorte de encontrar outros Garrinchas e outros Pelé por aí para que o Brasil volte a continuar sendo o melhor futebol do mundo”, diz Jairzinho. E só em uma Copa do Mundo se acha um jogador desse tamanho. Na terça-feira (2), o tema é raça: a garra de quem nunca desiste. LEIA TAMBÉM