Até algumas horas depois de uma vitória da seleção num mata-mata na Copa, há algo diferente no ar. Uma alegria gratuita, uma leveza. Mesmo quem volta para o trabalho não volta com a mesma seriedade. Trabalhar é prazeroso. Estranhos se cumprimentam na rua.

A experiência da Copa do Mundo é, hoje, o que chega mais próximo de unir a totalidade do país torcendo por um mesmo objetivo —vencer o adversário externo— e esquecendo das diferenças políticas.

No resto do tempo, estamos divididos. Não tanto em nossas propostas para o Brasil —a maioria gostaria de um Estado mais eficiente, menos corrupção, combate ao crime eficaz, programas sociais melhores etc.— quanto em nossa desconfiança ou mesmo ódio para com quem pertence ao outro grupo político. É a "polarização afetiva".

A polarização no nível atual é um obstáculo a uma política funcional. Quando gravar vídeos na rede falando mal dos adversários rende mais dividendos eleitorais do que trabalhar com eles para gerar soluções de consenso, os incentivos da competição política passam a trabalhar contra a melhora da sociedade. Os conflitos geram muito calor e fumaça, mas nenhuma luz.

Nosso contexto traz desafios inéditos, mas o fenômeno não é novo. É um dos problemas perenes da filosofia política, sob vários nomes, como faccionalismo: a divisão da sociedade em facções que lutam entre si e põem em risco o bem comum. Aristóteles apontava o risco de facções, grupos que julgavam não ter sua devida parte nos recursos, no poder ou no prestígio social, e que lutam violentamente entre si. São a antessala da tirania.