Circula por aí um meme que resume meu atual desencanto com a seleção brasileira. De um lado, o vestiário de 1994: jogadores reunidos, tocam pandeiro e cantam numa união genuína e espontânea. Do outro, o vestiário atual: atletas milimetricamente arrumados, encaram o espelho para garantir o melhor ângulo do corte de cabelo e o engajamento nas redes. O império do narcisismo digital substituiu o suor coletivo. Olhar para o nosso futebol dá desânimo. Sorte nossa que a Copa é muito maior do que o Brasil.

Ainda que eu torça convictamente pela nossa camisa, o verdadeiro espetáculo não fica só dentro do campo. Como colunista de esporte, durante anos escrevi sobre os bastidores da Fifa e da CBF, chafurdando na lama da corrupção e da cartolagem que comanda o esporte. Sei exatamente como a engrenagem é suja. Mas sou incapaz de resistir ao magnetismo dessas semanas. A Copa é infinitamente maior do que os engravatados que a controlam e os contratos de patrocínio que moldam os craques diante do espelho.

Em 2017, quando a Fifa anunciou que o Mundial de 2026 seria inflado para 48 seleções, defendi a mudança nesta coluna. Fui fuzilada pelos puristas. Disseram que eu era "inimiga do futebol-arte", que o nível técnico despencaria e o torneio viraria uma várzea global. Minha resposta na época, que sustento hoje com a Copa rolando, foi simples: posso não saber lhufas de esquema tático, mas entendo tudo de festa.