O futebol é o palco mágico onde a nossa loucura ganha permissão oficial para existir e reinar absoluta no meio da rua.

Durante um mês, a cada quatro anos, grande parte do planeta entra em um acordo silencioso e decide que a vida de 11 homens correndo atrás de uma esfera sintética é a coisa mais importante do universo. No fundo, talvez seja mesmo a única coisa que faça sentido.

O apito inicial do juiz não marca apenas o começo de uma partida, mas decreta a suspensão temporária e gloriosa da realidade objetiva. Os boletos a pagar, o trânsito engarrafado, as decepções amorosas e as crises políticas desaparecem como fumaça levada pelo vento, onde o destino pode ser reescrito em uma fração de segundo por um chute torto ou por um milagre inesperado.

Olhamos para o campo e não vemos apenas rapazes de 20 e poucos anos com cortes de cabelo esquisitos. Vemos heróis míticos carregando o peso das nossas próprias esperanças cansadas. O craque que dribla três adversários e chuta no ângulo faz exatamente aquilo que gostaríamos de fazer no dia a dia.

Vibramos com ele como se a glória fosse nossa porque, naquele instante, a glória é realmente nossa e de mais ninguém. Exigimos dele uma perfeição absurda que nós mesmos nunca alcançamos e ficamos furiosos quando ele erra um passe simples, esquecendo convenientemente que ele também é feito de carne e osso, medo e noites maldormidas.