PUBLICIDADE Costurando memória pessoal e coletiva, escritora Lilian Sais usa o esperte como pano de fundo para discutir relações familiares, perdas e recomeços 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Futebol como metáfora da vida real. Torcedor não esconde tensão durante jogo em que Brasil foi eliminado pela Noruega na Copa de 2026: depois da decepção, é hora de recomeçar — Foto: ANGELA WEISS / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você No livro "As regras", a escritora Lilian Sais utiliza o futebol para resgatar memórias afetivas e reconstruir sua própria trajetória pessoal. A obra investiga o preconceito histórico contra mulheres no esporte, contrastando notícias antigas com fotos de sua avó jogadora. A narrativa traça um paralelo sensível entre as regras do futebol e as imprevisibilidades da vida, lidando com perdas e superações. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A filha recebe das mãos do pai uma ampulheta e, tentando entender o significado de milésimo de segundo, observa os grãos de areia que caem e a pouca duração do movimento de cada um deles. Seria o tempo de chutar uma bola, de vê-la bater na trave, de decidir uma partida, de perder um jogo ou de olhar para um retrato. Ao recuperar fotografias antigas e recordar as disputas de Copa do Mundo a que assistiu na televisão ao lado do pai, Lilian Sais, em “As regras”, rememora os anos 1990, reelabora a própria vida e propõe que leitoras e leitores ditem as regras de um novo jogo, desta vez movido pelas palavras. Convidada para dar uma aula a respeito da relação entre futebol e escrita de autoria feminina, no contexto da Copa no Catar, a narradora-autora aproveita a oportunidade para unir dois temas que lhe interessam, pensando no desafio decorrente de não ter se recordado com facilidade de muitos textos literários que abordassem o esporte, sobretudo escritos por mulheres. Sua pesquisa reúne notícias e entrevistas publicadas em jornais antigos condenando a participação feminina no futebol, a exemplo deste: “Pé de mulher não foi feito p’ra se metter em shooteiras!” Contrária à declaração, a foto da avó de Lilian, mãe de seu pai, com a bola no pé e ao lado de outras mulheres que também jogavam no mesmo time, mostra a importância de quebrar o que na época, fim da década de 1940 ou início da de 1950, era encarado como regra. Muito presente na vida da autora, o futebol é também um mediador afetuoso de relações familiares, de modo tanto a aproximar pai e filha, que juntos veem jogos e comentam as partidas, quanto a parecer distanciar, quando ela decide revelar que torce pelo time da mãe: perguntada pelo pai, Roberto, se não queria assistir ao jogo do time deles, a pequena Lilian declara “que não era palmeirense, mas sim são-paulina, como a mamãe” e indica como, na lógica masculina, essa escolha soa como uma afronta. Mas esse possível distanciamento sai de campo, e o que dinamiza o jogo é a compreensão, traduzida pela lembrança do presente que a menina ganha dos pais e abraça em uma foto: a bola. Preço das derrotas “Será que alguém consegue guardar uma migalha da primeira Copa do Mundo da vida?”, questiona a narradora nascida no mesmo dia em que aconteceu o Maracanaço, décadas depois da derrota do Brasil para o Uruguai. Seu pai tinha dois anos de idade em 1950, e a pergunta feita corresponde à dúvida de que ele teria alguma memória dessa final. Sabemos, entretanto, o que fica de ensinamento no aniversário da filha, apreensiva no ano de 1994 pelo fato de o mau agouro da data do Maracanaço poder contribuir para uma eventual derrota brasileira em final contra a Itália no dia seguinte: “Você sabe qual foi o problema do Maracanaço? O problema foi o Brasil ter entrado em campo naquele clima de ‘já ganhou’, filha. Isso não se faz. Jogo de futebol é pra ser jogado com seriedade, do início ao fim. Esse é o espírito das regras.” A derrota de 1950 costura perdas pessoais na narrativa, as cinzas de seus mortos, a ausência de palavras noticiando a morte de seu pai, “o peso impossível do silêncio”. No jogo do texto, nós, leitoras e leitores, sentimos também as duras entradas, as faltas repentinas, as travas, tanto as que ficam expostas nas páginas quanto as que evocamos de nossas próprias experiências. Cientes de que levantar a taça implica também ter lamentado muitas bolas na trave, passes errados, cartões e cobranças para fora, sabemos que a vida, como uma partida de futebol, é imprevisível, por isso marcada por lances que reverberam na memória, independentemente de vitórias. Afirma a autora que o livro é um acerto entre as regras dos dois, Roberto e Lilian, o que fica comprovado pela delicadeza com que descreve imagens, interpreta fatos, recupera desenhos e captura a ausência. O tempo da bola está relacionado à capacidade de uma jogadora ou um jogador se movimentar em sincronia com a trajetória da própria bola; a narrativa, do mesmo modo, revela como “presente e passado se tocam” e proporcionam o drible que antecipa a finalização. “As regras” é um gol bonito de Lilian Sais. Thaís Velloso é escritora, autora de “Teias no céu”, professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ
Um livro em que o futebol é metáfora da vida
Costurando memória pessoal e coletiva, escritora Lilian Sais usa o esperte como pano de fundo para discutir relações familiares, perdas e recomeços














