Na galeria de personagens caricatas saídas da imaginação e da observação de Nelson Rodrigues, destacava-se a "grã-fina das narinas de cadáver", de ar superior e pouco se lixando para os hábitos e diversões da plebe ignara.
Levada à tribuna de honra do Maracanã, ela observa os jogadores, o árbitro e os bandeirinhas se movendo pelo campo e pergunta a seu companheiro de aventura esportiva: "Quem é a bola?".
Nelson era o oposto da grã-fina. Severamente míope, sem enxergar direito os lances da partida, dava pouca importância à bola. Seu negócio era o homem que a chutava. No futebol, encontrou um universo perfeito para expressar suas obsessões de artista: paixão, traição, culpa, medo, heroísmo, vida e morte. O indivíduo entre a glória e a vaia, diante da multidão implacável.
Na carona do torneio que magnetiza as atenções do planeta, está nas livrarias "As Copas de Nelson Rodrigues", uma caixa com três volumes. Organizado por Caco Coelho e Crica Rodrigues, neta do escritor, reúne 150 textos publicados na coluna "Meu Personagem da Semana", trazendo ilustrações originais de Marcelo Monteiro.
São mais de 600 páginas, que cobrem os anos de 1958 a 1970. Nem por isso estão datadas. Ao contrário, gritam de atualidade. É um dos milagres da obra de Nelson, permanecer atemporal, moderna, eterna.















