Em artigo publicado recentemente neste espaço, argumentei que estender o horizonte de convergência da meta de inflação, mantendo o número de 3%, equivale, na prática, a mudar a meta sem admitir o ajuste. Sustentei que expectativas não são ancoradas por intenções declaradas, mas por ações e por consistência ao longo do tempo, e que um banco central que diz "a meta é 3%, mas convergirei em 2028" não exerce flexibilidade técnica, valida a desancoragem.

O Copom fez justamente isso nesta quarta-feira (17). O comunicado começou na direção correta. O diagnóstico foi preciso: aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre, com setores cíclicos voltando a desempenhar papel significativo e mercado de trabalho resiliente.

Inflação cheia e medidas subjacentes acelerando, distanciando-se ainda mais da meta e superando seu limite superior na última leitura. Expectativas para 2026 em 5,30% e para 2027 em 4,10%. Estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, enfraquecendo os canais de transmissão da política monetária. O cenário justificava, sem ambiguidade, a manutenção dos juros.

Como a projeção de inflação para o horizonte relevante atual, o quarto trimestre de 2027, era de 3,7%, significativamente acima da meta de 3%, não havia como justificar um corte de juros. Foi aí que o comunicado introduziu um elemento que desfez toda a lógica mais dura que o próprio diagnóstico havia construído.