Gerando resumoSérgio Werlang Ex-diretor de Política Econômica do Banco CentralEx-diretor de Política Econômica do Banco Central, o professor de economia Sérgio Werlang acredita que o Brasil deve encontrar um momento adequado para ajustar sua meta de inflação para uma taxa que seja mais compatível com a realidade da economia doméstica. Também avalia que o Comitê de Política Monetária (Copom) — que completou 30 anos no sábado, 20 — poderia divulgar mais os modelos que utiliza para embasar suas decisões sobre a taxa de juros básica do País.Em entrevista ao Estadão/Broadcast sobre as três décadas do colegiado, Werlang disse que gostaria de ver no Brasil o desenho usado pelo Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês), que agrega integrantes externos ao Copom nas decisões de política monetária para evitar um ambiente contaminado. Ele lembra de fatos curiosos que viveu de março de 1999 a setembro de 2000 no colegiado, incluindo uma negativa que recebeu no momento da implantação do sistema de metas de inflação no Brasil, hoje vista como uma postura correta de seus superiores.O economista comenta ainda sobre a importância de as vozes dentro do BC não serem necessariamente unânimes. “Até hoje, as pessoas do mercado não entendem. Não é obrigatório que todo mundo tenha a mesma opinião. Não sou obrigado a votar com a maioria. E ponto.”Veja abaixo os principais trechos da entrevista:PublicidadeQual a importância do Copom para o Banco Central, para o sistema de metas e até com algum impacto sobre a economia na prática?O Copom foi muito importante, como é a invenção do diretor Chico Lopes na época em que o Gustavo Franco era presidente: o Copom começou a organizar uma comunicação que ainda era muito baseada em como funcionava o Fed (Federal Reserve, o BC dos Estados Unidos). As atas levavam três meses para sair e isso mudou rapidamente depois, forçando que a discussão de juros fosse pública. Óbvio que não fica tudo público, é impossível. Mas, pelo menos, tinham as diretrizes gerais das discussões de política monetária, sendo acessadas por pessoas de fora. E eles também falavam de política cambial. Hoje em dia nem precisa muito falar disso, porque o câmbio é livre.O sr. apontaria um momento de mais relevância nestes 30 anos?Uma reunião muito importante que teve — acho que foi em setembro, outubro de 1998 —, quando já estava claro que não era possível segurar a âncora, segurar o câmbio sem alguma forma dele começar a deslizar para cima porque estava muito artificial. E o Chico Lopes conseguiu fazer com que a diretoria seguisse o ponto de vista dele, que era que a gente não podia fazer nada mais drástico no câmbio. Simplesmente a política cambial tinha de ser, ao longo do tempo, liberalizada, pois não adiantava querer insistir naquilo porque não ia dar certo. Na época, havia duas propostas, e a dele foi vencedora. Foi muito importante isso. Passado um tempo, então, entra a diretoria de Armínio (Fraga), da qual eu fiz parte, e a gente monta o sistema de metas (de inflação).Leia tambémCopom completa 3 décadas de mudanças, com turbulências e amadurecimentoTaxa de juros no Brasil é alta porque a economia ainda é indexada à inflação, diz Henrique MeirellesComunicado do BC, no pós-Copom, deixou dúvidas sobre rumo dos juros, diz ex-diretorComo foi isso?O Armínio pediu para eu cuidar do sistema de metas para inflação. Eu já tinha ouvido falar no sistema porque participei de uma reunião da Econometrics Society da América Latina no México. Acho que foi em 1997. Achei aquilo interessante, mas eu confesso que não conhecia o sistema. Fui estudar todas as experiências lá fora. Em junho de 1999, o sistema estava implantado do início ao fim, com dois relatórios trimestrais de inflação — que agora mudaram o nome para relatório de política monetária —, em inglês e em português, e publicados na data precisa em que foi anunciada sua publicação. Voltando ao Copom, as reuniões passaram a ser mensais, depois a cada 45 dias. A escolha por reunião mensal foi baseada numa visita que eu e Tombini (Alexandre Tombini, ex-diretor e depois ex-presidente do BC) fizemos ao Bank of England e participamos do primeiro dia da reunião deles. O Riksbank (BC sueco) também ajudou muito, e o Banco do Canadá.PublicidadeE como foi na prática?A gente fazia as reuniões organizadamente, no prazo que tinha, e a gente tentava transmitir tudo que a diretoria do Banco Central pensava sobre política econômica e qual o impacto que isso tinha na taxa de juros. A gente dava um sinal de que podia ter um Copom extraordinário. A razão era muito simples: sabíamos que a taxa ia baixar, bastava a área externa estar equilibrada. Então, não tinha sentido ficar segurando os juros por um mês. Era uma bobagem. A gente chegou a botar a taxa em 45% ao ano, mas rapidamente ela foi diminuindo. Depois disso aí não precisou mais. Havia um comunicado muito sucinto e uma ata que era divulgada dias depois.A comunicação do BC era mais cifrada inicialmente. Acredito que hoje seja bem mais clara, não?Muito, muito. Não tem nem comparação. Você tem toda a razão, mas foi um início, teria que passar por esse estágio, de institucionalizar essa forma oficial, de haver um comunicado: ‘olha, é isto o que a diretoria, o Copom pensa sobre como está a inflação’. Você pode discordar, não tem problema nenhum. Aliás, o Copom discordava entre si. Tivemos votos divergentes muito antes de sermos obrigados a publicar os votos individuais. No início do ano 2000, em março ou abril, tivemos dois votos divergentes: um para subir e outro para cair. Sem dizer quem eram, a gente publicava os votos em bloco. Foi um Copom importante. Por quê? Porque mostrou que, de fato, a gente estava explicando o que estava acontecendo, inclusive que havia dúvidas internas. Não era aquele negócio de todo mundo na mesma direção, que depois ficou. Quando obrigaram a ter o voto nominal, todo mundo votava igual. Ah, está brincando, né? Nunca teve discussão?Copom, do Banco Central, comemora 30 anos Foto: André Duzek/ EstadãoE hoje?Obviamente, isso mudou, voltou a ter poder de ter discussão mais adiante. Até hoje, as pessoas do mercado não entendem. Não é obrigatório que todo mundo tenha a mesma opinião. Não sou obrigado a votar com a maioria. E ponto. Hoje em dia isso é muito mais claro. Na época não era. Então, acho que esse foi um Copom importante. Acho que agora a diretoria está num período bem complicado porque o Ilan (Goldfajn, ex-diretor e ex-presidente do BC) teve essa ideia de baixar a meta. Ele convenceu o ministro da Fazenda, Paulo Guedes. E aí estabeleceu essa meta de 3%, que não tem a menor condição de funcionar no Brasil, é baixa demais. Não vai dar. Só que não adianta mudar a meta antes. A gente já viu que deu errado mudar a meta sem mexer na área fiscal. Tem de acertar o fiscal e aí troca a meta para 4,5% de volta.Mesmo em um ano eleitoral?Não, não tem a menor chance de fazer essa troca hoje. Uma coisa interessante é que não tem nenhuma lei que diga que o Copom tem de ser instituído. O Copom é uma reunião, é uma instituição que se criou e que é super útil para a economia. É um exemplo brilhante de uma instituição que surgiu como resposta às necessidades de uma economia que é muito problemática, que vive de stop and go, gasta para caramba e com uma inflação também de stop and go.PublicidadeComo aperfeiçoar o Copom?CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO Copom já melhorou muito nisso: agora publicam volta e meia um box, um documento, mas não tem um caderninho com um update de todos os modelos que eles usam com todos os coeficientes uma, duas vezes por ano. Eles vão fazendo e você vai catando aqui, ali. Eles já revelaram quase tudo. O que não revelaram são esses modelos mais complicados. Todo mundo usa igual. Devia ter uma publicação dos modelos do Copom, uma coisa mais sistematizada. Segunda coisa, eu acho que precisava de uma opinião — uma ou mais opiniões — independente no Copom, que não fosse da diretoria do Banco Central. Isso tem na Inglaterra e funciona super bem. Naquela ambientação, se contamina com a opinião do outro. Na Inglaterra, você tem um hedge fund manager importante, às vezes. Aqui no Brasil, seria melhor um ex-hedge fund manager. Ou uma pessoa da área acadêmica.O sr. se lembra de algum fato pitoresco envolvendo o Copom?Quando a gente propôs o sistema de metas para o Malan (Pedro Malan, ex-presidente do BC) e para o ministro Pedro Parente, colocamos as inflações cadentes porque tinha começado muito alto. Eles vetaram. Disseram que a gente estava fazendo a inflação cair muito rápido. Eu acho que a gente tinha colocado 3% ou 3,25% no último ano. E eles tinham toda a razão.
Entrevista | Governo tem de acertar fiscal e mudar meta de inflação para 4,5%, diz ex-diretor do BC
Sérgio Werlang destaca a necessidade de uma meta de inflação mais realista e alinhada com a situação econômica do país, além de sugerir maior clareza nas decisões do Copom.













