Alexandre Schwartsman diz que expectativas com o índice de preços passaram a mostrar maior descolamento da meta desde 2023 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central — Foto: Leo Pinheiro/Valor RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 10:46 Ex-diretor do BC critica estratégia de inflação e metas elevadas Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, critica a estratégia atual do BC, alegando que ele não está empenhado em atingir a meta de inflação. Desde 2023, o BC optou por um prazo mais longo para convergir a inflação à meta, o que resultou em expectativas inflacionárias mais altas. Schwartsman destaca que o BC parece ter uma meta implícita mais alta, priorizando uma abordagem mais gradual de desinflação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A persistência das expectativas de inflação acima da meta é, em parte, consequência da própria estratégia adotada pelo Banco Central. A análise é do ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, que foi diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central entre 2003 e 2006. Em estudo recente de sua consultoria, assinado em conjunto com a economista e sócia Maria Cristina Pinotti, Schwartsman alega que, ao optar por trazer a inflação de volta à meta de forma mais lenta, em um prazo mais longo do que o chamado "horizonte relevante" (de seis trimestres à frente), o BC passou a transmitir ao mercado, a partir de 2023, a mensagem de que a inflação continuará acima do objetivo por um período prolongado. O ex-diretor do BC analisou 37 projeções de inflação realizadas pelo próprio Banco Central a partir de março de 2017, retiradas dos Relatórios Trimestrais de Inflação (RTI), substituídos pelos Relatórios de Política Monetária (RPM) a partir de 2025. Definida pelo Conselho Monetário Nacional, a meta de inflação é de 3%, com um intervalo de 1,5 ponto percentual para mais (teto da meta em 4,5%) ou menos (piso da meta em 1,5%). Confira abaixo os principais pontos da entrevista. Como você avalia o último passo do BC na condução da Selic? Foi frágil. Você tem um diagnóstico dove (brando). E o que eles dizem? Olha, tem uma piora do cenário inflacionário no que diz respeito à inflação corrente, às expectativas e às nossas projeções. O petróleo desempenha um papel? Sim, mas não é só petróleo. O choque em algum momento se dissipa. O que interessa é o secundário e a materialização da alta do petróleo se faz agora. E eles têm diagnóstico de uma economia que permanece com pressões de demanda e mercado de trabalho expressivo. O conjunto é correto. Mas havia duas posições possíveis: reduzir a taxa de juros, apesar da piora do cenário, ou parar de cortar por conta dessa piora. E o BC fez algo maluco: olha, se eu for subir os juros eu teria que fazer um baita esforço para trazer a taxa de inflação para meta no horizonte, ou seja, subir uns três pontos percentuais. E isso vai causar um rebuliço nos mercados, mas vai jogar inflação para baixo da meta. Mas aí a conclusão é pelo corte. Oi? Entre subir três pontos e cortar o juro com um cenário inflacionário pior, tem um monte de coisa no meio do caminho. Não é uma decisão binária. A decisão que ele tinha à mão era manter ou reduzir, e ele trouxe da cartola uma alta ou uma baixa. Não tem lógica nenhuma. Como é que você reconcilia? O cenário ficou pior, então eu decidi cortar. Mas você não pode subir, e pode manter. Era o que se esperava? Não. O BC não está buscando exatamente a meta no horizonte relevante. Ele não quer chegar lá. Uma outra coisa que é bem esquisita: eles dizem que vão trazer a inflação para a meta no 1º trimestre de 2028. Oi? Você está projetando inflação em 3,7% até dezembro de 2027 e seu horizonte anda só três meses e, até março de 2028, você terá uma redução de 0,7 ponto percentual na sua projeção? É uma redução muito rápida à luz de toda experiência que temos e ao que os próprios modelos do BC dizem. Não dá para derrubar 0,7 ponto percentual da inflação em período curto. A justificativa me parece pobre. Mas por que esse movimento acontece, na sua avaliação? Pelo mesmo motivo que estava cortando antes. O BC já começou o processo de taxa com uma projeção de inflação acima da meta. Em março, no horizonte, que era o 3º trimestre de 2027, a inflação era de 3,3%. Não obstante, ele decidiu cortar. E aí aumentou a projeção e continuou cortando. Foi para 3,5% (de inflação prevista, na decisão de abril), e, agora 3,7%. E o BC seguiu cortando. É um BC que reduz juro mesmo com inflação para cima da meta. Existe uma permissividade com a meta, então? Há evidência de uma mudança visível de mudança de postura do BC com a Selic até o fim de 2022 e de 2023 para frente. Havia busca de convergência mais tempestiva da inflação à meta e, a partir de 2023, uma aparente extensão do prazo. São dois pontos. Um, é que o BC não persegue a meta. Ele tem uma meta implícita mais alta. E uma outra alternativa é a extensão do período de convergência, e a ação dele precede isso. Ambas são complementares. Desde muito antes o BC já sugere que não tenta trazer a inflação no horizonte relevante, mas um pouco depois. Se você não quiser atingir a meta em 18 meses, mas em 36, significa que no fim de 2027 a inflação vai passar em cima da meta. Buscar uma inflação mais alta no horizonte relevante ou estender o prazo de convergência são coisas complementares e que podem ser feitas simultaneamente. E há um conjunto de evidências que o BC tem estendido o período de convergência. As projeções do Copom são uma delas. E não só uma, pontual, mas a trajetória delas. Entre o 1º trimestre de 2017 até o fim de 2022, em só 22% das projeções do BC para o horizonte relevante a inflação estavam acima da meta no horizonte relevante ou depois. Em 78%, as projeções estavam ou na meta ou abaixo, o que quer dizer que ele estava tentando atingir a meta. Mas, de 2023 até 2026, em 94% dos relatórios, a projeção do BC para o horizonte relevante e para os trimestres seguintes está acima da meta. Ou seja, não é um Banco Central que faz força para entregar inflação na meta em 18 meses. Ele aparentemente ainda quer, mas não chega exatamente lá. Isso sugere que o Banco Central estendeu o período. Há, portanto, uma postura diferente? Sim. Ele não necessariamente está jogando a toalha, mas está praticando a convergência de maneira mais ampla. Por que alguém escolheria fazer de maneira ampla? Presumivelmente para poupar ou reduzir o custo da desinflação. Vamos lembrar que tivemos uma inflação alta na saída da pandemia, você tem um ponto de partida ruim. A inflação estava desviada, é algo difícil, precisa de coisa devagar. Roberto (Campos Neto, ex-presidente do BC) segurou o juro até agosto de 2023. Logo, você tem um ponto de partida ruim. A outra possibilidade, ainda sob (o mandato de) Roberto, é que ele entra em um período com um governo hostil. Há uma pressão boçal e ele pode ter dito “vou segurar enquanto der e começo a reduzir não a inflação, mas suavidade do ponto de vista de atividade”. E há ainda uma terceira possibilidade: ele dizer "não dou conta da coisa diante de política fiscal e aí suavizo, porque senão vou ter que segurar juros infinitamente". Isso poderia aumentar o risco de dominância fiscal. Vimos o dólar a R$ 4,90 e ele voltou para a casa dos R$ 5,20. Acha que há peso dessa leitura? A reação do dólar é, em parte, do fortalecimento global. Mas em parte porque se vê no BC algo hesitante no que diz respeito aos próximos passos da política monetária, cortando juros mesmo com um cenário inflacionário pior.