Na semana passada, o Banco Central do Brasil optou por reduzir novamente a taxa Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. Essa decisão foi mal recebida por diversos analistas do mercado, que chegaram a apontar que a autoridade monetária estaria perdendo credibilidade com esse movimento. Isso porque, para amparar essa decisão, o BC optou por alongar o chamado "horizonte relevante" para trazer a inflação de volta à meta: em vez de considerar que esse prazo seria o último trimestre de 2027 (seis trimestres à frente), a autoridade monetária considerou o primeiro trimestre de 2028 (sete trimestres à frente).

Bem, em primeiro lugar, acho que é importante lembrar que, a despeito de a Selic ter recuado, ela segue em terreno altamente restritivo —isto é, bastante acima da chamada taxa de equilíbrio (ou neutra), hoje estimada em cerca de 10% a 11% ao ano. Ou seja: o BC não está estimulando a economia, e sim apenas reduzindo, de forma bastante gradativa, o grau de restritividade da política monetária. Vale notar que há uma possibilidade de que essa taxa de juros de equilíbrio recue bastante nos próximos anos, em razão do fenômeno da "ressaca de endividamento" (ver minha coluna anterior aqui na Folha).Também é importante identificar a origem de boa parte da piora do quadro inflacionário corrente e prospectivo: de janeiro a agora, as expectativas de consenso do mercado para a alta do IPCA em 2026 passaram de cerca de 4% para 5,2% —muito acima da meta de 3%, com intervalo de tolerância de mais ou menos um ponto percentual.