O Banco Central derrubou os juros na medida prevista pelo mercado, em 0,25 ponto porcentual, para 14,0% ao ano. PUBLICIDADENinguém gosta desse juro básico (Selic) tão alto. Mas quem critica esse forte aperto do volume de moeda na economia critica a consequência, e não a causa. É como o cão que morde o pau que lhe é atirado, e não quem o atira. A principal causa da inflação acima da meta é a frouxidão da atual política fiscal; é o governo gastando demais; é o governo fazendo gol contra.Nesta quarta-feira, 05, o presidente Lula defendeu uma “política de seriedade fiscal”. Com isso, pareceu reconhecer a insustentabilidade de sua política de gastança. Não dá para levar a sério essa conversa.O Banco Central até vem denunciando esse tiro no pé, mas sem muita ênfase. Fala do lobo mau, mas passa a impressão de que é bicho desdentado. PublicidadeNos documentos e nas entrevistas de seus dirigentes, o Banco Central avalia que o cenário econômico piorou; ainda assim, desde março, a decisão tem sido de cortar a Selic Foto: Adobe StockEssa não é a única inconsistência do Banco Central na sua comunicação com a opinião pública. Nos seus documentos e nas entrevistas dos seus dirigentes, o diagnóstico é de que as coisas vêm piorando, como está claro para quem acompanha os fatos: aumento das incertezas externas e internas, dívida pública em trajetória explosiva, o Tesouro enfrentando falta de apetite do mercado na rolagem dos seus títulos, mercado de trabalho apertado, consumo alto demais em proporção à renda, famílias excessivamente endividadas, avanço fraco do PIB, alta dos combustíveis em consequência das guerras, persistência da alta dos serviços, indefinição da política de juros nas economias avançadas – e, mais que tudo, inflação rodando acima da meta. E, no entanto, desde março, a decisão é de corte.Desta vez, a perda de força inesperada da inflação em julho, de 0,06%, quando medida pelo IPCA-15, ajudada pelo enfraquecimento da cotação do dólar, desarmou os espíritos que imaginavam nova pausa na definição dos juros, à altura dos 14,5% ao ano. Mas não está claro se este recuo da inflação é apenas ocasional. Tanto o mercado (medido pela Pesquisa Focus) como o Banco Central continuam projetando inflação acima da meta em 2026 e 2027, mais uma demonstração de que a política de juros continua sendo sabotada pelo governo.O Banco Central preferiu não adiantar os próximos passos (sem “forward guidance”) da política de juros, porque muita coisa continua no ar, como o desfecho da guerra e seu impacto sobre os preços do petróleo, os desdobramentos da política global do presidente Trump, as peripécias da política eleitoral e os estragos produzidos pelo El Niño sobre os preços dos alimentos.
Opinião | Juros ainda altos: corte da Selic em meio a muitas incertezas
O Banco Central preferiu não adiantar os próximos passos da política de juros porque muita coisa continua no ar, da guerra e da política de Trump às eleições e ao impacto do El Niño sobre os preços dos alimentos












