Comitê de Política Monetária reduziu taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sede do Banco Central em Brasília — Foto: Arthur Menescal/Bloomberg Após a moderação em dados de inflação e atividade, o Banco Central (BC) decidiu cortar a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual no Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, de 14,25% para 14% ao ano. Essa é a quarta queda no ciclo de calibração dos juros básicos e todas foram da mesma dose, somando no total 1 ponto percentual de alívio, em um dos processos de afrouxamento monetário mais graduais da história do Copom. O atual ciclo de redução da Selic foi iniciado em março, após a taxa ser mantida por cerca de nove meses (desde junho de 2025) no pico de quase duas décadas, de 15%. O novo nível alcançado com a decisão unânime do colegiado liderado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, nesta quarta é o menor desde março do ano passado (13,25%). Para a próxima reunião, em setembro, mais uma vez, o BC não deixou pistas sobre seus planos e disse que vai acompanhar a evolução dos dados, mas afirmou que monitora com "atenção" desancoragem adicional das expectativas de inflação. "O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação. Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta." Citando também o "significativo aumento de incerteza", o BC reforçou que o cenário atual demanda demanda "serenidade e cautela" na condução dos juros. "O cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária. O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta." A Selic é o instrumento que o BC detém para tentar cumprir sua missão de colocar a inflação na meta, que é de 3%, com limite de tolerância entre 1,5% e 4,5%. O corte dos juros básicos para 14% era amplamente esperado por bancos, gestoras e consultorias consultadas pelo Valor Pro. Das 113 instituições ouvidas, 110 esperavam queda de 0,25 ponto percentual, enquanto três aguardam manutenção em 14,25%. O consenso do mercado sobre esta decisão do Copom foi se formando ao longo do tempo, principalmente graças a resultados melhores do que o esperado nos principais indicadores de inflação e atividade econômica desde o último encontro, em junho. Naquela reunião, o BC já não tinha dado nenhuma sinalização sobre os planos para a Selic para esta quarta. Em um ambiente bastante volátil e incerto, a estratégia do comitê para conduzir a política monetária com “serenidade e cautela” foi esperar a evolução dos dados até a reunião deste mês. Nesse sentido, tanto o IPCA — índice inflacionário oficial — de junho (0,16%) quanto o IPCA-15 de julho (0,06%) representaram surpresas favoráveis, sobretudo nos índices subjacentes, que indicam a tendência de inflação. No campo da atividade, o arrefecimento na geração de vagas formais de emprego na primeira metade de 2026 (921,6 mil) ante o mesmo período de 2025, conforme o novo Caged, também foi considerado uma notícia positiva em relação ao risco inflacionário à frente. No comunicado desta quarta, o BC citou os dados mais favoráveis, mas foi bastante contido na caracterização da evolução positiva, ponderando que a atividade segue em patamar resiliente e o mercado de trabalho, aquecido. Em relação à inflação, disse que o índice cheio desacelerou, mas ainda se situa acima do teoto da meta (4,5%), enquanto os núcleos estão agora marginalmente abaixo do limite superior. "O conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião sugere uma moderação gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, com sinais mistos entre setores, e mercado de trabalho aquecido. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta, enquanto as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta." Em relação ao cenário externo, o BC avaliou que o ambiente segue "incerto" em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas. "Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities." No comunicado, o BC também atualizou as projeções do Copom para o IPCA - índice de inflação oficial - para 2026, 2027 e para o primeiro trimestre de 2028, que a partir desta reunião passa ser o horizonte relevante do comitê, ou seja, o período em que o colegiado mira para colocar a inflação na meta. Para o primeiro trimestre de 2028, a projeção foi mantida em 3,2%, enquanto para o final de 2026 houve leve redução, de 5,2% para 5,1%, e para o término de 2027, aumento marginal, de 3,7% para 3,8%. As estimativas são calculadas com base em um cenário que leva em consideração a Selic no Boletim Focus (13,75% no fim deste ano e 12% no final de 2027) e uma taxa de câmbio que começa em R$ 5,10 e evolui conforme o método da paridade do poder de compra. Além disso, o petróleo segue a curva futura da commodity pelos próximos seis meses e depois passa a aumentar 2% ao ano. No caso das expectativas, desde o encontro de junho, houve redução na projeção mediana do Boletim Focus para 2026, de 5,3% para 5,0%, embora fora do intervalo da meta, mas alta nas estimativas mais longas, para 2027 e 2028, para 4,2% e 3,8%, respectivamente. O desvio para os próximos anos, especialmente em 2028, é considerado mais preocupante, porque não tem relação com os choques de oferta, como o salto nos preços de petróleo devido à guerra e o risco climático relacionado ao El Niño, e é associado em parte às preocupações fiscais domésticas. Em relação ao balanço de riscos, foram mantidas as preocupações constantes do comunicado de junho, com a avaliação de que há uma assimetria altista, ou seja, as ameças que podem elevar ainda mais as projeções de inflação pesam mais na balança. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, o Copom destaca: uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia; uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo;uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária - referência aos programas mais recentes do governo em meio ao ano eleitoral. Ministros do governo falam sobre tarifaço de Trump; Gabriel Galípolo (Banco Central) — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo Por outro lado, ressalta três riscos de baixa: uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários. Reunião anterior No Copom de junho, o BC mirava o final de 2027 para cumprir a meta (horizonte relevante) e projetava que o IPCA seria de 3,7%. Além disso, disse enfaticamente que o balanço de riscos pendia mais para os perigos de alta da inflação — ou seja, de que a projeção oficial poderia ser ainda mais elevada do que 3,7%. O BC, inclusive, adicionou um novo risco na última reunião, relacionado às políticas do governo federal que estimulam a demanda, assim como incluir um novo fator que poderia manter as expectativas inflacionárias por mais tempo longe da meta, os efeitos climáticos, para além do preço do petróleo. Por outro lado, os integrantes do Copom argumentam que, diante das diversas incertezas no cenário, o grau de confiança sobre as projeções objetivas é ainda menor do que o normal. A comunicação do Copom de junho foi considerada confusa pelo mercado para tentar explicar a opção pelo corte, de 14,50% para 14,25%, mesmo com a projeção oficial de inflação longe da meta de 3%. Depois, em entrevista à imprensa, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o diretor de Política Econômica, Paulo Picchetti, explicaram que a decisão pela queda devia-se à avaliação de que o desvio era explicado majoritariamente pelo choque ligado ao fenômeno climático El Niño, que se dissiparia já no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante nesta reunião de agosto — o alvo é móvel, de 18 meses à frente. O Copom ainda explicou, na ata do encontro de junho, que discutiu diferentes trajetórias para Selic e que considerou mais adequadas aquelas menos discrepantes em relação ao Boletim Focus, ao Questionário Pré-Copom, enviado pelo mercado ao colegiado, e na curva de juros. Segundo o BC, essas trajetórias contemplavam “cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração” e permitiam um impacto mais suave sobre a atividade, com a inflação convergindo para a meta no primeiro trimestre de 2028.