O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve continuar hoje o processo gradual de calibração da Taxa Selic nesta quarta-feira com mais um corte de 0,25 ponto percentual dos juros básicos, de 14,25% para 14% ao ano. O movimento, se confirmado hoje ao fim do segundo dia da reunião do Copom, levaria a taxa ao menor patamar desde março do ano passado (13,25%). Além disso, representaria o quarto recuo consecutivo de 0,25 ponto percentual ou uma queda total da Selic de 1 ponto percentual neste ciclo de afrouxamento, configurando um dos processos de queda mais graduais da história do regime de metas para a inflação, criado em 1999. Os cortes foram iniciados em março, após os juros básicos ficarem nove meses em 15%. A redução da Selic para 14% é amplamente esperada por bancos, gestoras e consultorias consultadas pelo Valor Pro. Das 113 instituições ouvidas, 110 esperam queda de 0,25 ponto percentual, enquanto três aguardam manutenção em 14,25%. Além disso, a maioria do mercado financeiro acredita que o Copom deve manter a porta aberta para continuar o ciclo de calibração na próxima reunião, em setembro. O que vai pesar na decisão? O consenso sobre a decisão do Copom desta quarta foi se formando ao longo do tempo, principalmente graças a resultados melhores do que o esperado nos principais indicadores de inflação e atividade econômica desde o último encontro, em junho. Aquela reunião ocorreu sob a marca da divulgação de números desfavoráveis para o controle inflacionário e o Copom adotou uma comunicação considerada confusa pelo mercado para tentar explicar a opção pelo corte mesmo com a projeção oficial de inflação longe da meta de 3%. Em junho, o BC mirava o final de 2027 para cumprir a meta (horizonte relevante) e projetava que o IPCA seria de 3,7%. Depois, em entrevista à imprensa, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o diretor de Política Econômica, Paulo Picchetti, explicaram que a decisão pela queda devia-se à avaliação de que o desvio era explicado majoritariamente pelo choque ligado ao fenômeno climático El Niño, que se dissiparia já no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante nesta reunião de agosto — o alvo é móvel, de 18 meses à frente. Sem sinalização clara Mesmo assim, não houve nenhuma sinalização mais objetiva dos integrantes do BC sobre os planos para o Copom deste mês. Em um ambiente bastante volátil e incerto, a estratégia do comitê para conduzir a política monetária com “serenidade e cautela” era esperar a evolução dos dados até a decisão. Na avaliação de economistas do mercado financeiro, a moderação verificada nos últimos indicadores de atividade e inflação dão um certo conforto para o BC cortar mais 0,25 ponto percentual nesta quarta. Composição do Copom, com Gabriel Galípolo (segundo à esquerda) na presidência do BC — Foto: Divulgação / Banco Central O economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, afirma que a continuidade da desaceleração dos núcleos de inflação no IPCA-15 de julho foi importante, assim como a desaceleração na geração de vagas formais de trabalho no primeiro semestre, conforme o novo Caged. Segundo ele, esses dados recentes confirmam o cenário esperado pelo BC, apontado, por exemplo, pelas estimativas de hiato do produto no futuro, e corroboram mais um corte de 0,25 ponto percentual da Selic nesta quarta, para 14%. Desancoragem limita espaço para corte No entanto, a desancoragem das expectativas de inflação em 2027 (4,22%, segundo o Boletim Focus) e, principalmente em 2028 (3,80%), indicam que o espaço para o relaxamento dos juros está perto do fim, avalia Oliveira. O economista afirma que o IPCA do ano que vem será muito impactado pelo choque provocado pelo El Niño, o que explicaria o forte distanciamento ante a meta de 3,0%, mas o desvio de 2028, quando o efeito climático já teria se dissipado, é mais preocupante e passa a ganhar mais relevância no horizonte relevante do BC. — O BC não vai fechar a porta para mais cortes, mas deve indicar de algum modo que esse processo está mais próximo do fim — diz ele, que espera que o ciclo se encerre com uma queda para 13,75% em setembro, mesma expectativa da Focus. O cenário de corte derradeiro para 13,75% em setembro é o mesmo do BTG Pactual. De acordo com o relatório do banco, a comunicação do Copom ainda aponta continuidade do ciclo de calibragem. O BTG lembra que o BC indicou que há várias trajetórias de política monetária com pausas e retomadas da redução dos juros que levam a inflação à meta no horizonte relevante. Na ata da reunião de junho, o Copom afirmou que discutiu diferentes trajetórias para Selic e que considerou mais adequadas aquelas menos discrepantes em relação ao Boletim Focus, ao Questionário Pré-Copom, enviado pelo mercado ao colegiado, e na curva de juros. Segundo o BC, essas trajetórias contemplavam “cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração” e permitiam um impacto mais suave sobre a atividade, com a inflação convergindo para a meta no primeiro trimestre de 2028. O BTG ainda argumenta que se o balanço de riscos para a inflação em 2027 tem uma assimetria para cima, com perigos relacionados à guerra no Oriente Médio, como os preços de petróleo, à probabilidade de um El Niño muito forte e à persistência da desancoragem das expectativas, para a atividade, o risco é maior para baixo. “O balanço de riscos para a atividade em 2027 apresenta assimetria baixista, dado que o endividamento das famílias está em nível recorde, o que pode intensificar a desaceleração do consumo em um ambiente de menor impulso fiscal e política monetária ainda restritiva”, diz, em relatório, acrescentando ainda que as boas notícias dos dados correntes de IPCA e do Caged abrem uma “janela favorável” para os próximos cortes.
BC deve cortar hoje a taxa básica de juros para 14% ao ano: veja o que pesa na definição da Selic
Taxa básica da economia está em R$ 14,25% ao ano e deve cair 0,25 ponto percentual












