O mercado financeiro tem lá as suas cismas. Antes da decisão da última reunião do Copom, havia quase unanimidade de que o Banco Central (BC) deveria cortar a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual. Cortada, como lhe convém, a autoridade monetária assim fez. Apenas para ser atingida em seguida por uma saraivada de críticas. PUBLICIDADEO paradoxo tem lá sua lógica. Em primeiro lugar, adivinhar o que será feito não implica concordância. Além disso, a julgar pela simplória cartilha que rege os movimentos de juros num regime de metas de inflação, há poucos argumentos para o corte de juros. O minueto do Copom é uma coreografia tão bem ensaiada que talvez ele seja um dia substituído por inteligência artificial. Se a economia está aquecida, há riscos de choques externos e os analistas econômicos preveem (sabe-se lá como) que a inflação no futuro estará acima da meta, sobe-se a Selic. Do contrário, ocorre o inverso. Não é muito mais do que essa simplificação exagerada. Juros estratosféricos cevam os investidores e agudizam instantaneamente a concentração de renda — ao contrário do que propugna o PT Foto: Adobe StockO problema, já apresentado nesse espaço, é que a eficiência dessa política anti-inflacionária num país com as características do Brasil é diminuta. O impacto da Selic sobre a inflação é pequeno, no contexto de uma economia muito exposta a oscilações de preços externos, em que ainda convivemos com a indexação e, principalmente, os déficits fiscais são renitentes e copiosos. PublicidadeO IPCA anual até maio, na casa dos 4,7%, só não foi maior porque o índice dos produtos comercializáveis, que não depende dos juros, se contentou com parcos 2,3%. A inflação de serviços, mais exposta ao nível de atividade, está rodando a 6% ao ano. Juros altos não foram capazes de desacelerar a atividade a ponto de impactar a inflação. Esse é o quadro: os juros altos pouco funcionam para conter a inflação no contexto de uma expansão fiscal, parafiscal e creditícia que atende a objetivos eleitorais. O jogo é conhecido. Vale tudo para ganhar a eleição. O resto fica para depois. Além disso, o BC deve ter percebido que juros ainda mais altos, como parece propor a cartilha da Faria Lima, poderiam deflagrar uma crise de crédito de grandes proporções, considerando o alto grau de endividamento das famílias e das empresas. Isso não convém, ainda mais agora. O resultado que esse conflito entre duas forças antagônicas proporciona é a prevalência de juros estratosféricos, que cevam os investidores e agudizam instantaneamente a concentração de renda — ao contrário do que propugna o PT. É preciso discutir como elevar a potência da política monetária. As regras que criamos têm servido apenas para asfixiar os devedores e enriquecer os que já são ricos. Há muito a fazer, mas no cardápio de medidas necessárias vale a pena incluir o fim da reeleição de mandatos presidenciais. Não resolve, mas ajuda. Publicidade
Opinião | Juro alto pouco contém a inflação num contexto de expansão de gasto e crédito a serviço da reeleição
É preciso discutir como elevar a potência da política monetária; as regras que criamos têm servido apenas para asfixiar os devedores e enriquecer os que já são ricos











