O Banco Central (BC) de Gabriel Galípolo se encontra em um dos momentos mais delicados desde que o atual presidente assumiu a presidência da instituição no início do ano passado.PUBLICIDADEO Copom tinha um claro plano de voo de executar um ciclo de cortes da Selic este ano cujo "orçamento", no início de 2026, era estimado na faixa entre dois e três pontos porcentuais (pp). Veio a guerra no Oriente Médio, causando não só a elevação da expectativa de mercado da inflação deste ano (o que era esperado), mas também à desancoragem para prazos mais longos, o que é nocivo.O mercado e os analistas reprecificaram o orçamento de cortes da Selic para algo muito menor, e o BC decidiu caminhar com passos curtos de 0,25pp por reunião. Já realizou dois cortes, levando a Selic de 15% para 14,5%, e parte do mercado espera nova redução de 0,25pp na reunião de 16 e 17 de junho.Mas agora alguns expoentes do mercado consideram que o BC não deveria mais cortar a Selic, como Solange Srour, do UBS (em entrevista a Gustavo Nicoletta, do Broadcast) e Bruno Serra Fernandes, do Itaú Asset Management (em entrevista ao Intraday do Valor).Inclusive, na visão de Srour, o problema inflacionário do Copom deriva mais de fatores domésticos (a economia turbinada pelos impulsos fiscais e parafiscais em ano eleitoral) do que da guerra no Oriente Médio.PublicidadeInterromper o ciclo de corte de juros, no entanto , seria uma decisão bastante difícil para o Copom. O governo inteiro está empenhado em garantir o voto econômico em outubro, e o BC de Galípolo seria visto como um elemento remando no sentido contrário. Com mais um corte protocolar da Selic em junho (mesmo que tecnicamente injustificado), o Copom adia o problema para a sua reunião de agosto, mas não o soluciona.Circulam no mercado algumas teorias sobre possíveis motivações para o BC cortar a Selic em 0,25 em junho e até prosseguir cortando nesse ritmo para além da próxima reunião. A saída de Diogo Guillen (que será economista-chefe do Itaú a partir de 1º de julho) do colegiado pode ter removido do Copom aquele tipo de diretor que vende de forma mais enfática e persistente uma visão conservadora de política monetária aos demais membros e, especialmente, a Galípolo.Além disso, o BC pode ter concluído que insistir em pisar forte no freio monetário diante de um governo que pisa de forma cada vez mais intensa no acelerador fiscal é inútil e até mesmo perigoso.Há duas vagas não preenchidas no Copom e um dos riscos é que, se o BC for visto como um obstáculo à estratégia eleitoral e política do governo, a nomeação de heterodoxos para as vagas poderia voltar à pauta (o nome de Guilherme Melo, atual secretário executivo do Planejamento, foi indicado por Haddad em fevereiro, mas não houve a nomeação).Adicionalmente, a autonomia operacional formal do BC (que busca agora a autonomia orçamentária) deve-se a uma decisão do Congresso Nacional. Assim, embora insulado de pressões políticas imediatas sobre as suas decisões de política monetária, o BC não atua num total vácuo político.PublicidadePor outro lado, se der a impressão de que titubeia em relação à busca da meta de 3%, a perda de credibilidade pode significar um custo altíssimo para o BC e para a economia brasileira. É nessa corda bamba que Galípolo e o Copom estão sendo forçados a caminhar.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com).Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/6/2026, terça-feira.
Opinião | Banco Central na corda bamba
Espaço para cortes da Selic vai se fechando em pleno ano eleitoral, mas eventual parada no ciclo de redução da Selic poderia colidir com estratégia eleitoral do governo de estímulos à economia.












