Na coluna anterior, mostrei que os canais de transmissão da política monetária no Brasil são peculiares: o canal da riqueza é atenuado pela indexação da dívida pública à Selic, e o de crédito atinge as famílias de forma assimétrica. Volto ao tema para analisar o papel da política macroprudencial nesse contexto.A expansão acelerada de cartões de crédito, inclusive por emissores não bancários, e de modalidades como cheque especial e crédito pessoal por bancos digitais e financeiras deve ser vista sob essa ótica. O risco não está na inovação financeira em si, mas em modelos de negócio baseados na distribuição ampla de limites a tomadores com renda instável e alto comprometimento financeiro.O arcabouço internacional admite medidas direcionadas a segmentos específicos, por exemplo, limites de comprometimento de renda para crédito pessoal e cartões Foto: Werther Santana/EstadãoPUBLICIDADEQuando juros elevados, inadimplência crescente, rolagem persistente e concessão agressiva de limites se combinam e várias instituições adotam estratégias semelhantes, o problema ganha dimensão sistêmica: é esse tipo de risco correlacionado e agregado que a política macroprudencial existe para endereçar, diferentemente da supervisão microprudencial, focada na solidez de cada instituição.Não há nada de heterodoxo nisso. Para instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Conselho de Estabilidade Financeira e o Banco de Compensações Internacionais, essas políticas servem para evitar que problemas de crédito se espalhem pelo sistema financeiro e ameacem sua estabilidade.O arcabouço internacional admite medidas direcionadas a segmentos específicos, por exemplo, limites de comprometimento de renda para crédito pessoal e cartões, ou exigências adicionais de capital para carteiras concentradas em modalidades de juros muito elevados, sempre que houver vulnerabilidades no crédito às famílias.PublicidadeEssas políticas não se prestam a administrar a demanda agregada nem a substituir a Selic no regime de metas. Seu papel é reduzir vulnerabilidades financeiras e melhorar a qualidade da intermediação. Ao reduzir a dependência de modalidades muito caras de crédito, pode-se aliviar parte da sobrecarga concentrada na taxa real de juros, complementando, não substituindo, o trabalho do Comitê de Política Monetária.A agenda, portanto, não é trocar a política monetária por atalhos heterodoxos. É reconstruir os canais parcialmente obstruídos identificados nesta e na coluna anterior: crédito mais prudente para as famílias e menor dependência de modalidades caras.No médio prazo, com disciplina fiscal, maior segurança jurídica e estabilidade de regras, será possível tornar a dívida pública menos indexada à Selic, que, como vimos, também obstrui parte dos canais de transmissão da política monetária.Essas medidas, além de maior estabilidade financeira, tendem a reduzir a taxa real de juros necessária para cumprir a meta de inflação. Publicidade