A explicação mais comum para a inflação brasileira permanecer acima da meta, apesar de juros reais elevados, é conhecida. A política fiscal expansionista e os estímulos ao crédito aquecem a demanda, elevam a taxa neutra e a dívida pública. O argumento é correto, mas incompleto.PUBLICIDADEA discussão costuma ignorar a eficácia dos canais de transmissão da política monetária. Juros mais altos reduzem a inflação ao afetar consumo, crédito, preços dos ativos, câmbio e expectativas. O problema é que esses mecanismos funcionam de forma peculiar na economia brasileira.Tomemos o canal da riqueza. Nos livros-texto, a elevação dos juros reduz o valor dos ativos financeiros, tornando famílias e empresas mais cautelosas em seus gastos.Canais de transmissão da política monetária apresentam características peculiares que reduzem sua potência Foto: Adobe StockNo Brasil, porém, quase metade da Dívida Pública Mobiliária Federal é composta por títulos pós-fixados à Selic. Quando os juros sobem, esses ativos não sofrem perdas patrimoniais. Ao contrário, passam a render mais, elevando a renda financeira de seus detentores e estimulando o consumo.O canal do crédito também apresenta particularidades. Em abril deste ano, a taxa de juros média dos empréstimos livres às pessoas físicas superava 60% ao ano. Mais de um quarto dessas operações pagava juros acima de 100% ao ano, chegando a mais de 400% no rotativo do cartão de crédito. Para um consumidor submetido a taxas dessa magnitude, uma elevação de alguns pontos na Selic sequer é percebida e produz impacto limitado sobre sua decisão de consumo.PublicidadeImpacto nas empresasJá para as empresas, a realidade é distinta. No crédito livre para pessoas jurídicas, a taxa média girava em torno de 25% ao ano. Nesse caso, aumentos de 300 ou 400 pontos-base na Selic afetam diretamente o fluxo de caixa das companhias.Leia tambémBrasil ganha 1,5 milhão de novas empresas inadimplentes em um ano por causa de juro alto‘Há uma espiral negativa na economia muito forte’, diz Ricardo Lacerda, do BR PartnersEmpresas altamente alavancadas podem enfrentar deterioração financeira significativa, mesmo quando a desaceleração da demanda agregada é relativamente modesta. O custo de desinflacionar por esse caminho pode ser muito elevado e penaliza mais o investimento do que o consumo.Em outras palavras, a política monetária parece atingir com muito mais intensidade os balanços das empresas do que as decisões de consumo das famílias. Isso ajuda a explicar por que juros reais tão elevados produzem efeitos limitados sobre alguns setores e forte estresse financeiro sobre outros.As dificuldades para combater a inflação no Brasil não decorrem apenas dos desequilíbrios fiscais. Os canais de transmissão da política monetária apresentam características peculiares que reduzem sua potência. Além da necessária consolidação fiscal, o debate não deveria se limitar ao nível da Selic. A eficiência dos mecanismos pelos quais atua merece igual atenção. Voltarei a explorar esse tema em coluna futura.
Opinião | Por que juros reais elevados atingem mais as empresas do que o consumo das famílias?
Canais de transmissão da política monetária têm características peculiares que reduzem sua eficácia para conter a inflação e levá-la à meta













