Já tratei neste espaço de três problemas da economia brasileira: o crescimento das despesas obrigatórias, a meta de inflação de 3% e as deficiências dos canais de transmissão da política monetária.PUBLICIDADEOs gastos obrigatórios crescem por mecanismos constitucionais e infraconstitucionais que se tornaram incompatíveis com a estabilização da dívida. Mesmo déficits primários modestos são insuficientes quando o juro real supera muito o crescimento real do PIB. O resultado é dívida em alta, prêmio de risco elevado e dificuldade para ancorar expectativas.Nesse ambiente, o Banco Central recebeu a missão de entregar inflação de 3% ao ano. Desde a adoção do regime de metas, em 1999, o IPCA só se aproximou desse patamar em circunstâncias especiais: forte valorização cambial em 2006 e, em 2017, grande ociosidade, otimismo com medidas fiscais e a safra recorde que derrubou os preços de alimentos.A saída não é simplesmente elevar a meta Foto: Wilton Junior/EstadãoA comparação internacional reforça o ponto. Nos Estados Unidos, a meta de 2% se refere ao Personal Consumption Expenditures (PCE), índice que historicamente roda cerca de 0,5 ponto porcentual abaixo do Consumer Price Index (CPI), indicador metodologicamente mais próximo do IPCA. Assim, a meta brasileira é apenas meio ponto superior à referência norte-americana comparável. Para um país emergente, com memória inflacionária e indexação ainda relevante, a diferença parece pequena demais, tornando a meta muito ousada.Essa intuição foi formalizada em trabalho de Aloisio de Araújo e coautores, da EPGE/FGV. Em economias com fragilidade fiscal, uma meta baixa demais pode não aumentar a credibilidade. Pode fazer o contrário: ao elevar o custo de rolagem da dívida, reduz a confiança de que a meta será cumprida e deteriora expectativas.PublicidadeA terceira peça é a transmissão incompleta da política monetária. Como parcela relevante da dívida pública é pós-fixada, apertos monetários elevam a renda financeira dos detentores desses papéis e limitam o efeito riqueza negativo. O crédito é caro e segmentado; preços administrados, serviços e contratos preservam inércia. Assim, o País convive com juros altos e inflação distante da meta.A saída não é simplesmente elevar a meta. Sem medidas fiscais estruturais, isso seria lido como tolerância com inflação mais alta. A sequência correta é: no início do próximo governo, anunciar uma agenda crível de contenção do gasto obrigatório e discutir uma meta compatível com a realidade brasileira, talvez entre 4% e 4,5%.O objetivo não seria afrouxar o regime monetário. Uma meta crível e apoiada por âncora fiscal permitiria reduzir juros reais e melhorar a eficácia da política monetária. O Brasil precisa sair do círculo vicioso em que juros altos não entregam inflação na meta, elevam a dívida pública e inibem o investimento produtivo.