Em várias ocasiões ao longo dos últimos meses, escrevi nesta coluna sobre gastos excessivos do governo e sobre a prática de excluir parte deles de forma artificial do cálculo do teto do arcabouço fiscal, de modo a evitar punições. Como eu disse, isso é autoengano, pois não se evitam os efeitos práticos na dívida pública. Na semana passada, vimos isso se materializar: pela metodologia do Banco Central, a dívida bruta atingiu o equivalente a 81,1% do PIB, um nível considerado alto para o Brasil. O mais preocupante é a persistente trajetória de ascensão. A dívida subiu de 78,7% em janeiro para o nível atual, o mais alto em cinco anos, e as projeções são de que essa tendência se manterá. De acordo com o Tesouro Nacional, que usa uma metodologia de cálculo diferente do BC, a dívida terminará o ano em 83,5% do PIB e poderá chegar a 87,9% em 2029. Estimativa de alguma baixa só na próxima década. Na economia há dois tipos de punição para o País: o encarecimento da rolagem da dívida, que drena mais recursos públicos, e o outro vem na forma de juros Foto: Anna/Adobe StockPUBLICIDADEQualquer mudança pode alterar essas projeções. A questão não é a foto, mas o filme: desde 2023 o governo vem ampliando a despesa, sem sinal de mudança. Um trabalho recente do economista Marcos Mendes mostra que, só em gastos anunciados este ano pelo governo, R$ 118 bilhões ficarão fora dos limites impostos pelo arcabouço fiscal. É mais um drible no arcabouço, que garante mais um aumento da dívida pública no futuro. Ao observar esses números e a trajetória, quem compra os títulos brasileiros — e, assim, financia o governo — considera esse nível de dívida alto para um país em desenvolvimento como o Brasil. Por isso, exige juros mais altos para continuar rolando a dívida. Pode-se fazer discursos contra os critérios do mercado — e ouvi muito deles ao longo de décadas. Mas não há como mudar essa percepção e a reação que ela desencadeia. Há duas dimensões a se observar na questão. No caso da política, como não há punição para o aumento da dívida, em princípio está tudo bem. Nenhum gestor do governo sofrerá sanções. Na economia há dois tipos de punição para o País. Uma é o encarecimento da rolagem da dívida, que drena mais recursos públicos, que poderiam ser mais bem investidos. A outra vem na forma de juros: quanto mais o governo gasta além da conta, mais o BC precisa agir, mantendo a Selic alta para controlar a inflação. PublicidadeA saída mais racional para esse ciclo é um freio e o controle da despesa pública. As coisas seriam piores sem o arcabouço fiscal, mas está perto do momento de uma ação mais decisiva na política fiscal para estabelecer maior equilíbrio na economia brasileira.