A reorganização fiscal promovida nos últimos anos, sob a gestão de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda, tornou o ajuste mais racional e socialmente mais defensável. Isso não elimina, porém, o fato de que a dívida pública segue submetida à dominância dos juros.

O Tesouro Nacional estima que, para estabilizar a dívida, o país precisaria alcançar resultado primário bem superior ao implícito no cenário corrente. Não se trata de exigência trivial. Quando a despesa com juros nominais gira em torno de 9% do PIB e quase metade da dívida está indexada à Selic, o custo financeiro ganha dinâmica própria. Juros elevados deixam de ser apenas instrumento de política monetária e passam a funcionar como força autônoma de pressão sobre as contas públicas.

Esse quadro se agrava porque a economia brasileira ainda carrega forte indexação de contratos, tarifas e preços administrados, o que prolonga a persistência inflacionária. O Plano Real debelou a hiperinflação, mas não eliminou por completo os mecanismos de recomposição automática. Assim, choques cambiais e altas de alimentos, energia e preços regulados continuam a se propagar pela economia por mais tempo.

Não obstante nossas raízes inflacionárias, alguns economistas dizem que o mundo vive hoje a chamada "hiperglobalização da inflação". Ou seja, um cenário em que choques de preços deixam de ser localizados e passam a se espalhar rapidamente por toda estrutura de custos. Em escala global, esses choques tornaram-se mais frequentes e disseminados. Guerras, pandemia e gargalos logísticos, como o recente fechamento do estreito de Ormuz, ampliam pressões sobre energia, alimentos, fretes e insumos.