No final de 2020, a dívida bruta do governo geral (DBGG) era de 88,6% do Produto Interno Bruto (PIB), e o déficit primário do Tesouro Nacional, que não inclui juros, foi de 9,8% do PIB. O auxílio emergencial, concedido por CPF, e não por domicílio, dada a falta de um cadastro social atualizado (CadÚnico), pagou R$ 320 bilhões à época (R$ 430 bilhões a preços de abril/2026) a 68 milhões de beneficiários. Embora necessário, foi mal focalizado e custou mais do que deveria, mesmo considerando as incertezas da pandemia.Em 2021, a relação DBGG/PIB caiu para 78,3% e, em 2022, para 71,7%. Mas não houve geração de resultados primários que justificassem essa redução. A principal razão foram as surpresas inflacionárias, que implicaram juros reais negativos. A correção não virá de melhora imediata dos resultados fiscais, mas de um conjunto de reformas Foto: Fabio Motta/EstadãoPUBLICIDADETomando-se a Selic média de cada ano menos o deflator do PIB, os juros reais foram: -3,4% em 2020, -7,5% em 2021 e 3,7% em 2022. Na prática, os juros negativos funcionaram como um haircut da dívida pública de cerca de R$ 600 bilhões, a preços da época.Assim, ao contrário do que sugere uma leitura a valor de face, a herança fiscal do governo anterior não foi boa, sobretudo considerando o adiamento de cerca de R$ 47 bilhões em precatórios.O governo Lula, por sua vez, não primou pela austeridade nem priorizou reformas estruturais que levassem, mesmo no longo prazo, à consolidação fiscal. E, se tivesse tentado, provavelmente não teria capital político para aprová-las. Pelo contrário, utilizou estímulos de demanda via política fiscal e crédito subsidiado para gerar um crescimento que se mostra insustentável. PublicidadeCom a inflação acima da meta, o Banco Central elevou os juros ao patamar atual de cerca de 10% ao ano em termos reais, tornando a trajetória da DBGG/PIB explosiva.Se ampliarmos a análise, veremos que o desajuste fiscal brasileiro não tem relação com ideologia ou partido político, como muitos analistas sugerem e em o que o mercado aposta. O resultado primário estrutural da União, ajustado pelo ciclo econômico e por itens não recorrentes, é negativo desde 2016.Com cerca de 92% das despesas primárias obrigatórias crescendo em termos reais, elevando a taxa de juros de equilíbrio, a relação DBGG/PIB tende a continuar subindo. Isso precisa ser interrompido já no início do próximo governo. A correção não virá de melhora imediata dos resultados fiscais, mas de um conjunto de reformas: corte de privilégios fiscais, desvinculações, melhor focalização das transferências, reforma administrativa que ponha fim aos supersalários e às promoções automáticas, e revisão da indexação previdenciária ao salário mínimo, entre outras.Talvez seja necessária uma crise para que governo e Congresso avancem nessa direção. Sem consolidação fiscal, a inflação fará seu trabalho sujo. Publicidade
Opinião | O déficit fiscal é estrutural, não tem ideologia; o governo e o Congresso precisam entender e agir
Uma análise ampla mostra que o desajuste fiscal brasileiro não tem relação com partido político












