É época de eleições e a máquina eleitoral do Planalto está a todo vapor, ignorando sinais de que a trajetória do endividamento público pode trazer desastres mais à frente — Foto: Çetin Aydin/Pixabay Parceria entre RZ3 e BEE4 aumenta as oportunidades de captação de capital para empresas. — Foto: Divulgação Enquanto o Tesouro anunciava um déficit primário de R$ 53,2 bilhões em maio, o maior em muito tempo para o mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros lançavam um novo Programa Desenrola e regulamentavam garantias para empréstimos consignados pelos trabalhadores com o uso do FGTS. No dia seguinte, ontem, o Banco Central informou que a conta dos juros pagos pelos governos em 12 meses terminados naquele mês atingiu R$ 1,11 trilhão, enquanto a dívida bruta segue crescendo rapidamente. É época de eleições e a máquina eleitoral do Planalto está a todo vapor, ignorando sinais de que a trajetória do endividamento público pode trazer desastres mais à frente — e para o próprio presidente Lula, que pode ser reeleito. O déficit do Tesouro subiu muito por medidas que procuraram criar um ambiente econômico de boas notícias antes do defeso eleitoral. Os precatórios, no valor de R$ 37,2 bilhões, foram pagos em março neste ano, quando em 2025 o foram em julho. Para evitar problemas, o Planalto aceitou o pagamento de 65% das emendas obrigatórias de parlamentares até junho. As receitas totais do governo central (inclui Tesouro, Banco Central e Previdência) avançaram 4,3% em termos reais, descontada a inflação, e as receitas líquidas, 4,8%, enquanto as despesas totais deram um salto de 13% reais na comparação dos primeiros cinco meses deste ano com o mesmo período de 2025. As despesas previdenciárias aumentaram 15,3% também acima da inflação. Até mesmo os investimentos cresceram muito, 79%, de R$ 23,4 bilhões no ano passado para R$ 41,9 bilhões agora. Com a possibilidade legal de abater R$ 64,4 bilhões da meta de resultado primário, a execução do orçamento não deve trazer muitos problemas para que o governo feche as contas com déficit zero ou um mísero superávit, o primeiro do governo Lula em seu terceiro mandato. Mas o peso das contas se faz sentir plenamente sobre as despesas com juros, que se tornam enormes não apenas porque a taxa Selic está muito alta, mas porque as dívidas só crescem sem que o governo consiga obter saldo na conta de receitas menos despesas. O BC mostrou ontem que o setor público consolidado (governos central, estaduais e municipais, além das empresas estatais) teve em 12 meses resultado negativo de R$ 149 bilhões (1,14% do PIB). O déficit primário é uma gota d’água perto dos juros nominais pagos no mesmo período, de R$ 1,111 trilhão. Somados, o déficit primário e a carga de juros compõem um acrescimento na dívida em 12 meses de R$ 1,26 trilhão (9,62% do PIB). É uma bola de neve que fará a dívida bruta fechar o governo de Lula em cerca de 83,3% do PIB, mais de dez pontos percentuais maior do que aquela que recebeu de seu antecessor (72,8% do PIB). Ela chegou em maio a 81,1% do PIB, com avanço de quase 1 ponto percentual (0,9) em apenas um mês. O governo acelerou o anúncio de programas na reta final permitida. A partir de sábado não será mais possível inaugurar obras ou fazer propaganda delas, item no qual o Planalto gastou R$ 520 milhões no primeiro semestre, o dobro das despesas de Jair Bolsonaro (Folha de S. Paulo, ontem). Na segunda-feira foi anunciado o Desenrola adimplentes, um programa que tentará criar um gueto de juros relativamente baixos de crédito em uma economia que paga taxas muito altas. Detalhe: é um programa para quem está pagando as contas em dia. Ele beneficiará trabalhadores informais com taxas de 1,99% ao mês, limitado a débitos de até R$ 15 mil. Aceito no programa, o cliente poderá pleitear novo empréstimo de até metade do valor do original, pagando no máximo 90% do valor da prestação do anterior. Os bancos, ao que parece, parabenizaram a ideia e não aderiram, ao menos no formato atual. Por que cobrariam juros menores de quem está pagando com relativa pontualidade juros maiores? Em outra iniciativa, o governo estimulou o crédito consignado privado, ao regulamentar a garantia que será dada com recursos do FGTS: 35% das verbas rescisórias em caso de saída do emprego, 100% da multa do FGTS e 10% do saldo no fundo. As taxas giram em torno de 3,5% ao mês. Por usarem crédito e garantias, vários desses programas não influem no resultado primário, mas, sim, na dívida. O pacote de bondades do primeiro semestre de medidas fiscais e parafiscais deu um impulso de 1,2% do PIB. Para Tiago Sbardelotto, da XP, acrescerão, em seus cálculos, R$ 38,2 bilhões em despesas primárias e R$ 152,3 bilhões em despesas financeiras (Valor, 26-6). Além de empilhar débitos e impedir que o BC reduza a taxa de juros a níveis civilizados para todos, o modo continuísta do presidente Lula estimula irresponsavelmente a assunção de dívidas no momento mais inapropriado: o custo do dinheiro é o mais alto em quase 20 anos, a inadimplência das famílias bate recordes, as empresas consomem cada vez mais Ebitda para pagar compromissos financeiros. O governo está bancando parte das dívidas de muitos setores da economia, endividando-se ele próprio para isso a um custo muito alto. O próximo governo terá um enorme problema fiscal nas mãos.
Dívida pública cresce, e Planalto dá mais estímulos à economia
É época de eleições e a máquina eleitoral do Planalto está a todo vapor, ignorando sinais de que a trajetória do endividamento público pode trazer desastres mais à frente












