O Banco Central errou e fez uma comunicação confusa para justificar o corte da taxa Selic de 0,25 ponto na última quarta-feira, 17, para 14,25%. Em especial, fez referência ao primeiro trimestre de 2028, um período de tempo que ainda não estava contemplado no seu “horizonte relevante”, que ia até o quarto trimestre de 2027, ou 18 meses à frente da data da reunião. Isso provocou insatisfação dos investidores, que entenderam que houve uma mudança nas regras de condução da política monetária - e até da meta - como se tivessem sido traídos em suas análises. Para eles, isso custa caro, já que fazem investimentos com recursos de terceiros e precisam dar retorno e resultado para os seus clientes.O presidente do Banco Central Gabriel Galípolo Foto: Foto: Taba Benedicto/EstadãoPUBLICIDADEEssa revolta se materializou em uma disparada do dólar e dos juros futuros, que também foi turbinada por uma fala mais dura do novo presidente do Fed, o banco central americano, que contrariou Donald Trump ao insinuar que os juros por lá podem subir. Até aí, jogo jogado. Banco centrais se atrapalham, e o momento atual é de extrema complexidade não só para o BC brasileiro, mas para todos os BCs do mundo. As críticas são válidas, mas é preciso traçar uma linha no chão entre ruído de comunicação e o clima de fim de mundo que está sendo criado, como se a credibilidade do Copom estivesse em xeque.A economia brasileira começou com uma expectativa de inflação em queda, foi surpreendido por uma guerra no Irã injustificada, e agora em que há o anúncio do acordo de paz não se consegue ter confiança, porque Donald Trump é um presidente volátil e irracional. PublicidadeNesse cenário, muitos investidores estão “machucados”, como se diz no jargão da Faria Lima, porque não performaram como esperavam com essa volatilidade. E aí desejavam uma comunicação mais clara do BC brasileiro, em uma espécie de guidance (indicação futura), que tornasse tudo mais fácil. E esse é justamente o papel do Banco Central, diminuir o ruído e não criar confusão.O BC entendeu que tem gordura de juros para queimar, já que retardou o início dos cortes este ano. Também teria que dar um choque brutal nos juros para levar a inflação à meta no quarto trimestre de 2027, já que sua projeção chegou a 3,7%. E também pontuou que as projeções estão com alta margem de erro, diante do quadro global incerto. Pelo seu modelo, teria, logo depois, que cortar a Selic rapidamente, porque a inflação no primeiro de 2028 ficaria abaixo de 3%. Para evitar o sobe e desce dos juros, fez o corte na dose pequena e deixou em aberto os próximos passos.Não há como afirmar que o BC está sendo leniente com a inflação e estimulando a economia visando as eleições, até porque nem daria tempo de a queda da Selic chegar na ponta. O corte para 14,25% mantém os juros reais extremamente altos e contracionistas e nem de longe atende aos interesses do PT - e de grande parte dos empresários, diga-se de passagem.O BC terá que se explicar e corrigir o erro, mas é exagero apontar que a credibilidade está em risco por um parágrafo mal escrito.