Um racha no bloco ocidental tem consequências profundas para todo o mundo O presidente chinês Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin, em Pequim, China, em 2 de setembro de 2025 — Foto: Sputnik/Alexander Kazakov/Pool via REUTERS A guerra no Irã não teve vencedores claros, mas tem um perdedor: o Ocidente sai mais dividido do que nunca. A relação entre os EUA e os aliados europeus, que estava longe de ser amigável antes mesmo de as primeiras bombas começarem a cair no Irã, hoje beira a separação. Isso tem consequências importantes para todo o mundo. Essa situação, por exemplo, favorece a ascensão da China e o expansionismo da Rússia. Desde o começo da guerra, ficou claro que a relação de confiança entre os EUA e a Europa seria abalada. O presidente Donald Trump não consultou nem alertou os aliados da Otan (a aliança militar ocidental) sobre a sua decisão de iniciar a campanha militar contra o Irã. A ação pegou os europeus de surpresa, abrindo uma crise diplomática no bloco transatlântico. Os principais líderes políticos europeus buscaram, de início, não criticar Trump nem questionar a legalidade dos bombardeios ao Irã. Apenas o premiê espanhol, Pedro Sánchez, disse que o ataque era “injustificado e perigoso”. Trump ameaçou “cortar todo o comércio com a Espanha”. Quase todos os países europeus, porém, negaram apoio logístico aos EUA e proibiram o uso de seu espaço aéreo e de bases militares em seus territórios para operações relacionadas à guerra, como transporte de material, tropas e voos de ataque ou reconhecimento. Com o tempo, as críticas à guerra aumentaram, e os europeus se recusaram a enviar ajuda pedida por Trump, principalmente para tentar liberar o Estreito de Ormuz, fechado pelo Irã. O incidente mais grave, no entanto, ocorreu quando o premiê da Alemanha, Friedrich Merz, afirmou, em 27 de abril, que os EUA não tinham uma estratégia para encerrar a guerra e que estavam sendo “humilhados” pelo Irã. Independentemente de Merz estar correto ou não, a declaração foi infeliz, especialmente vinda do líder do principal país da Europa e referindo-se a uma personalidade narcisista como Trump. A crítica desatou uma reação furiosa do presidente americano, que ainda está em andamento. Trump ordenou a retirada de 5 mil dos cerca de 36 mil soldados americanos estacionados na Alemanha, acrescentando que pode retirar mais tropas de lá e de outros países europeus. Por fim, deu até 4 de julho para a União Europeia aprovar o acordo comercial negociado em 2025 com os EUA. Se isso não ocorrer, carros e caminhões europeus passarão a ser taxados em 25%, medida que atinge principalmente a Alemanha. Os europeus estão tentando reduzir a tensão, mas há o risco de uma guerra comercial iminente. Um racha no bloco ocidental tem consequências profundas para todo o mundo. EUA e União Europeia são as duas maiores economias do planeta, e um conflito comercial mais amplo entre elas abalaria os mercados globais. Mas, principalmente, a divisão e o enfraquecimento do Ocidente liberal e democrático jogariam a favor da China e da Rússia no cenário internacional. A China é um concorrente econômico e tecnológico formidável para todo o mundo. A capacidade de enfrentar o desafio chinês certamente depende da colaboração entre os países do Ocidente. Uma situação de não cooperação e até mesmo de confronto entre esses países favorecerá os objetivos da China. Pequim sempre apostou na estratégia de dividir para conquistar. Nesse caso, porém, está assistindo de camarote a uma disputa que não fomentou. Do mesmo modo, o desentendimento entre os aliados ocidentais seria prejudicial para o objetivo de conter a política cada vez mais agressiva e expansionista da Rússia. Trump já disse que os EUA fizeram um favor à Europa em apoiar a Ucrânia e tirou parte desse apoio, tanto financeiro como militar. A retirada de tropas americanas fragiliza a capacidade de defesa europeia. Isso estimula Moscou a insistir na guerra na Ucrânia e a apostar em novas aventuras militares para recuperar territórios do antigo império russo. Os líderes da Rússia e da China já declararam que a parceria estratégica entre os dois países é “sem limites” e “sólida como uma rocha”. Diante desse desafio, o Ocidente deveria permanecer unido. Curiosamente, a própria guerra no Irã ilustra essa necessidade. Após ter ajuda negada pelos aliados, Trump disse que não precisava dela. Mas os acontecimentos provaram que ele estava errado. Nem o Irã foi derrotado nem Ormuz foi reaberto sem concessões. Se os EUA têm dificuldade de dobrar um país cuja economia é mais ou menos do tamanho da de Portugal, como conseguirão enfrentar sozinhos a parceria “inquebrável” de China e Rússia? Apesar de retrocessos recentes, o Ocidente ainda é o modelo de democracia, de Estado de direito e de capitalismo de mercado. Para que esses valores continuem a ser defendidos é importante que os principais países e líderes ocidentais colaborem. Sem essa cooperação, o mundo se tornará mais perigoso e menos próspero. A responsabilidade maior é sempre do lado mais forte. Os EUA precisam provar que continuam sendo um aliado confiável. As ações de Trump, porém, apontam na direção oposta.
Guerra no Irã divide Ocidente e favorece China e Rússia
Um racha no bloco ocidental tem consequências profundas para todo o mundo















