Desde que anunciaram um cessar-fogo nominal há dois meses, Irã, Israel e os EUA permanecem imersos em uma violência de baixa intensidade que se tornou a nova normalidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Prédio universitário bombardeado em Teerã; Grupos independentes afirmam que gastos dos EUA com guerra no Irã estão entre 28 e 35 bilhões de dólares — Foto: Arash Khamooshi/New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 12/06/2026 - 15:53 Oriente Médio em Tensão: Paz Instável Ameaça Comércio Global O Oriente Médio vive um perigoso "limbo" entre paz e guerra, onde ataques e promessas de cessar-fogo não se concretizam. Desde o cessar-fogo nominal entre EUA e Irã, ataques mútuos e tensões com Israel persistem. A interrupção do Estreito de Ormuz afeta o comércio global, enquanto a pressão econômica cresce. A falta de consenso sobre o programa nuclear iraniano e estratégias militares complexificam a situação, mantendo a região e o mundo em alerta. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nos últimos cinco dias, os Estados Unidos e o Irã trocaram ataques com mísseis após a queda de um helicóptero americano. Israel bombardeou o Líbano, provocando retaliação do Irã. E os houthis, apoiados pelo Irã, juntaram-se à represália no Iêmen. Em questão de horas na quinta-feira, após fazer novas ameaças públicas, o presidente dos EUA, Donald Trump, cancelou outro grande ataque contra a República Islâmica e voltou a apresentar a possibilidade de um acordo de paz, que Teerã minimizou. Nos dois meses desde que os EUA e o Irã declararam nominalmente um cessar-fogo, a linha entre paz e guerra praticamente desapareceu no Oriente Médio, com ataques e contra-ataques acompanhados de promessas de fim das hostilidades que nunca se concretizam. É menos um cessar-fogo do que um "fogo menor", nas palavras do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Mesmo que os combatentes consigam chegar a um acordo preliminar desta vez, essa zona cinzenta de "nem guerra nem paz" pode persistir por semanas ou meses, dizem analistas e diplomatas. Nem Trump nem o Irã parecem dispostos a fazer concessões significativas nas negociações para uma trégua de longo prazo, com muitos detalhes complexos a serem resolvidos — principalmente em relação ao futuro do programa nuclear iraniano. Tal impasse condenaria o Oriente Médio a um purgatório de violência esporádica e ansiedade constante. E forçaria o resto do mundo a confrontar uma nova e dura realidade econômica. A interrupção prolongada do fornecimento de petróleo e gás proveniente do Golfo Pérsico, diante do bloqueio do Estreito de Ormuz, teria um efeito cascata nas cadeias de suprimentos globais, causando escassez de alimentos e elevando os preços nos postos de gasolina e nos supermercados. — Há uma boa chance de que o equilíbrio atual, ou algo semelhante, persista — disse Caitlin Talmadge, professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) especializada em questões de segurança do Golfo Pérsico. — Nem toda guerra tem um fim limpo. O que torna este conflito particularmente complexo são seus múltiplos combatentes, cada um com suas próprias agendas, muitas vezes conflitantes. Trump, enfrentando eleições de meio de mandato e dificuldades políticas internas, sinalizou que está ansioso para virar a página. O Irã, tendo sofrido baixas terríveis, incluindo a morte de seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, vê este confronto como uma guerra de sobrevivência e dificilmente limitará seu programa nuclear em troca de uma trégua de curto prazo. Israel, por sua vez, considera o Irã uma ameaça existencial — suas instalações nucleares estão soterradas sob escombros, mas não destruídas, e seus aliados estão se reagrupando no Líbano, em Gaza e no Iêmen. Enquanto o presidente americano se confronta com o Irã, ele conduz negociações paralelas com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ora implorando que ele suspenda os ataques no Líbano, ora defendendo o direito de Israel de retaliar. Já Netanyahu enfrenta sua própria eleição, com o Irã representando uma importante questão pendente. — Se houver um cessar-fogo, mas não uma paz duradoura, será preciso ficar de olho no Irã — afirmou Charles A. Kupchan, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional dos EUA durante o governo do ex-presidente Barack Obama. — Também podemos ver a continuidade de guerras por procuração relacionadas ao Hamas, ao Hezbollah e aos Houthis (aliados iranianos espalhados pela região). Kupchan, agora professor de relações internacionais na Universidade de Georgetown, comparou o desafio para os Estados Unidos e Israel a "cortar a grama", uma expressão que se refere às ofensivas militares que Israel realizava periodicamente em Gaza para enfraquecer o Hamas antes do ataque do grupo em 7 de outubro de 2023. Tal situação não é inédita no Oriente Médio. Durante vários anos antes da guerra liderada pelos Estados Unidos no Iraque, Washington impôs sanções e zonas de exclusão aérea a Bagdá. Guerras por procuração eclodiram e instalações militares americanas foram atacadas, mais dramaticamente em 2000, quando o porta-aviões USS Cole foi destruído em um atentado suicida realizado por terroristas da Al-Qaeda em Aden, no Iêmen. Ponto-chave O que diferencia este conflito dos anteriores é o Estreito de Ormuz. Ao bloqueá-lo, o Irã exerceu uma nova e devastadora forma de pressão, mesmo que ainda não tenha forçado Trump a um acordo de paz. A navegação comercial permanece amplamente suspensa. O recente abate do helicóptero Apache, pelo qual os Estados Unidos culparam o Irã, serve como um lembrete dos riscos de um plano da Marinha americana para ajudar a garantir a passagem de navios pelo estreito. — Esta é mais uma medida temporária do que uma situação duradoura — destacou Martin Kelly, chefe de consultoria do EOS Risk Group, uma empresa de consultoria com sede no Reino Unido. Os preços do petróleo dispararam na quinta-feira em meio a temores de um retorno à guerra total, enquanto nos Estados Unidos a taxa de inflação ultrapassou os 4%. As preocupações com as consequências econômicas da guerra provavelmente dominarão a reunião dos líderes do G7 na próxima semana, na França. Os líderes europeus propuseram uma missão para garantir a segurança da navegação comercial, mas isso depende de um acordo entre Trump e Teerã para uma resolução de paz mais duradoura. O Irã também está sob pressão, com suas exportações de petróleo praticamente paralisadas pelo bloqueio retaliatório da Marinha dos EUA no estreito. — Essa situação de "nem guerra, nem paz" não é sustentável — pontuou Vali R. Nasr, especialista em Irã da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins. — A economia iraniana, assim como a economia global, não consegue sustentar isso ao máximo por mais de quatro ou cinco meses. Por essas razões, Nasr disse esperar que cada lado tente forçar o outro a recalcular a estratégia. — É exatamente isso que estamos presenciando — declarou, referindo-se aos ataques dos EUA contra bases de drones iranianas perto do estreito, que, segundo ele, foram calculados para romper o controle iraniano sobre a hidrovia. O impasse está criando suas próprias circunstâncias no terreno, muitas das quais são perigosas para os Estados Unidos, de acordo com analistas. Um grande número de tropas americanas está mobilizado na região, reduzindo sua capacidade de exercer influência em outros lugares, principalmente contra a China. Uma escalada significativa esgotaria ainda mais os estoques de defesa aérea e outras armas, que já estão baixos. — Você está reduzindo os estoques e mobilizando recursos, o que significa que está afetando a prontidão das Forças Armadas — ressaltou Seth G. Jones, presidente do departamento de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington. — Isso cria um risco enorme no Pacífico. Foco concentrado A guerra também está minando a capacidade da Casa Branca de lidar com outras crises. O presidente Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, que está em guerra com a Rússia, conflito que Trump prometeu encerrar em 24 horas, disse recentemente: — Vemos que os Estados Unidos estão totalmente focados na questão do Irã. Ele instou o presidente Vladimir Putin, da Rússia, em uma carta aberta provocativa, a negociar diretamente com ele. Putin, no entanto, recusou. Mesmo no Oriente Médio, a influência dos EUA tem demonstrado ter limites. Os ataques com mísseis e drones do Irã tornaram mais perigoso para os militares americanos operarem a partir de suas bases, enquanto a Marinha tem evitado, em grande parte, enviar grandes navios para o Golfo Pérsico, aparentemente por medo de serem alvejados. — Há novas realidades militares — salientou Talmadge, a professora do MIT. — Por muito tempo, presumimos que nossas forças de superfície e nossas bases teriam um ambiente seguro, e não têm. Uma situação mais otimista do que o atual limbo, segundo analistas, seria um acordo de cessar-fogo duradouro, no qual os Estados Unidos e o Irã concordassem em reabrir o Estreito de Ormuz, adiando a espinhosa questão do programa nuclear iraniano para uma negociação posterior. Isso poderia silenciar os ataques com mísseis do Irã contra os países do Golfo. Mas não está claro se tal movimento impediria Israel de atacar o Hezbollah, aliado do Irã no Líbano, já que o grupo xiita rejeitou um cessar-fogo e Israel alega que precisa se defender. — Quanto mais essa guerra persistir, mais fissuras provavelmente surgirão entre Israel e os Estados Unidos — disse Jones. Em certa medida, Trump está numa situação delicada que ele mesmo criou. O presidente americano parece relutante em fechar um acordo com o Irã que críticos linha-dura do Partido Republicano poderiam rotular como uma repetição do acordo nuclear de 2015 do presidente Barack Obama com a República Islâmica. “Nenhum acordo é melhor do que um mau acordo”, é o refrão do grupo de aliados de Trump. No entanto, a retomada de uma guerra de alta intensidade agravaria o caos econômico, além de colocar as tropas americanas em risco, cinco meses antes das eleições de meio de mandato, nas quais os republicanos já enfrentam uma batalha árdua. — Fazer com que essa guerra se transforme em um conflito ainda maior às vésperas da eleição não será politicamente vantajoso para os republicanos — avaliou Talmadge. — Mas o status quo também é ruim.