Há apenas duas semanas, durante a abertura da Grande Feira Americana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou triunfantemente: "Pela primeira vez em 3.000 anos, teremos paz no Oriente Médio." Era uma demonstração típica da sua autoconfiança, mas a "paz" que ele comemorava — o cessar-fogo com o Irã, que nesta quarta-feira ele declarou estar "encerrado", após menos de um mês — já começava a se desfazer. O resultado talvez fosse previsível para um memorando de entendimento de apenas 14 parágrafos, que evitava enfrentar os principais problemas e foi elaborado às pressas para que Trump pudesse anunciar que havia fechado um acordo, qualquer acordo. Agora, Trump parece enfrentar as consequências dessa pressa e de sua suposição — herdada dos tempos em que atuava no mercado imobiliário — de que seu adversário daria mais valor aos benefícios econômicos do que à ideologia revolucionária que orienta a política iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979. Isso deixa o republicano diante de uma série de alternativas pouco atraentes, em meio a impasses aparentemente sem solução sobre o futuro do programa nuclear iraniano — sem falar em seu programa de mísseis, no apoio a grupos considerados terroristas e na repressão contra sua própria população. Durante a cúpula da Otan, em Ancara, na Turquia, na quarta-feira, após os dois lados trocarem ataques, Trump ameaçou lançar grandes operações militares. Entre elas estariam a tomada de uma importante ilha iraniana de processamento de petróleo e ataques contra infraestrutura e usinas de dessalinização do país, algo que especialistas afirmam poder configurar crime de guerra. (Trump disse, contudo, que tem maior relutância em atingir as instalações de dessalinização.) No entanto, o presidente dos EUA já fez ameaças semelhantes anteriormente sem colocá-las em prática. Na quarta-feira, acrescentou que não espera um retorno a uma guerra em larga escala. Uma escalada desse tipo tem pouco apoio dentro dos EUA, e alguns aliados republicanos temem as consequências econômicas e políticas a menos de quatro meses das eleições legislativas de meio de mandato. Ninguém está mais consciente desse calendário — e da hesitação de Trump em repetir a experiência vivida na primavera — do que a liderança iraniana. Como alternativa, o presidente poderia restabelecer o bloqueio americano aos portos iranianos, numa tentativa de cortar a principal fonte de sustentação econômica do país. Mas isso exigiria uma presença militar americana intensa e permanente na região. Embora Trump tenha afirmado em abril que essa medida levaria ao colapso econômico do Irã, sua tentativa anterior de impor esse bloqueio não produziu esse resultado. Outra possibilidade seria conviver com uma situação em que não há nem guerra nem paz: um período marcado por confrontos esporádicos no Golfo Pérsico, interrompidos ocasionalmente por negociações diplomáticas, enquanto o tráfego pelo Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais importantes para o transporte mundial de petróleo — permaneceria muito abaixo dos cerca de 130 navios que cruzavam diariamente a região antes da guerra. Os mercados de energia provavelmente acabariam se adaptando; em certa medida, isso já começou a acontecer. Veja fotos do Estreito de Ormuz, foco de tensão entre Irã e Estados Unidos 1 de 12 Navio comercial visto da costa de Dubai em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 2 de 12 Estreito de Ormuz é uma região entre Irã e Omã — Foto: Reprodução/Nasa X de 12 Publicidade 12 fotos 3 de 12 Navios na costa de Dubai em meio à crise no Estreito de Ormuz — Foto: AFP 4 de 12 Imagem de satélite mostra a localização do Estreito de Ormuz — Foto: Divulgação/Nasa via AFP X de 12 Publicidade 5 de 12 Navio é visto perto da costa de Ras al-Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, a caminho do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 6 de 12 Navio da Guarda Revolucionária em exercício no Estreito de Ormuz — Foto: SEPAH NEWS / AFP X de 12 Publicidade 7 de 12 Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe CACACE / AFP 8 de 12 Lancha trafega pelo Estreito de Ormuz perto da costa dos Emirados Árabes Unidos — Foto: FADEL SENNA / AFP X de 12 Publicidade 9 de 12 Cargueiro tailandês foi atacado perto do Estreito de Ormuz, no último dia 11 — Foto: AFP 10 de 12 Navios petroleiros na região do Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe Cacace/AFP X de 12 Publicidade 11 de 12 Petroleiros seguem fundeados no Terminal de Carga de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos, no Estrei no Ormuz — Foto: AFP 12 de 12 Navio da Marinha iraniana participa de exercícios navais na região do Estreito de Ormuz — Foto: EBRAHIM NOROOZI /JAMEJAMONLINE/ AFP PHOTO X de 12 Publicidade Passagem crucial para o comércio mundial é tema central na guerra entre países Mas, para um presidente que prometeu um confronto rápido e sem custos contra um antigo adversário — a previsão da Casa Branca, nas primeiras semanas do conflito, era de "quatro a seis semanas" — uma guerra prolongada representaria um fracasso quase completo da missão que inicialmente propôs. E o custo seria enorme: o Pentágono já solicitou ao Congresso cerca de US$ 70 bilhões (cerca de R$ 360 bilhões) para cobrir as operações iniciais envolvendo o Irã, e esse valor continua aumentando a cada semana. — O problema é que todas as opções... suportar, escalar ou negociar ... são ruins de maneiras diferentes — afirma Richard Fontaine, diretor executivo do Center for a New American Security e ex-assessor do senador John McCain. Segundo ele, o cenário mais provável é "uma sequência contínua de ataques de baixa intensidade, de ambos os lados, seguida por uma intensa diplomacia conduzida por mediadores, o surgimento de um novo e frágil cessar-fogo e, depois, provavelmente, uma nova rodada de ataques". — Será uma longa oscilação entre uma guerra fria e uma guerra quente de baixa intensidade — acrescenta Fontaine. Muitos dos problemas enfrentados por Trump hoje foram agravados pelo próprio acordo de cessar-fogo. O documento deixou para uma negociação futura — pela qual o líder americano agora afirma ter pouco interesse — a definição sobre o destino do estoque iraniano de combustível nuclear enriquecido próximo ao nível necessário para a fabricação de armas atômicas, justamente um dos principais argumentos apresentados pelo governo para justificar o ataque ao Irã em 28 de fevereiro. O acordo também parece ter concedido ao Irã certo controle sobre a passagem pelo Estreito de Ormuz, principal instrumento de pressão estratégica de Teerã — especialmente da Guarda Revolucionária Islâmica — para elevar os preços do petróleo e justificar ataques contra petroleiros e navios cargueiros que não sigam suas novas regras. — O que estamos vendo agora é o Irã, mais especificamente, a Guarda Revolucionária Islâmica, tentando exercer controle sobre o estreito e afirmando que esse controle é um direito soberano — destaca Kevin Donegan, vice-almirante aposentado da Marinha dos EUA. — Essa é a principal carta que eles têm para jogar e, por isso, podemos esperar que continuem tentando interromper o tráfego de embarcações que utilizem rotas diferentes das que eles estabeleceram. O acordo permaneceu em silêncio sobre o arsenal de mísseis iranianos, principal preocupação de Israel. Também dependia da manutenção de um cessar-fogo no Líbano, embora Israel e Hezbollah, os protagonistas desse conflito, nem sequer fossem signatários do documento. Além disso, estabeleceu um prazo pouco realista de apenas 60 dias para resolver diplomaticamente questões que nem meses de combates intensos conseguiram solucionar. Naturalmente, muitos novos desdobramentos ainda podem ocorrer. Trump diz que acordo com o Irã está 'encerrado'; ataques no Golfo voltam a atingir navios Na quarta-feira, Trump voltou a ameaçar tentar tomar a Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irã. Ele também pode tentar capturar o estoque de urânio enriquecido a 60% armazenado profundamente nas instalações subterrâneas de Isfahan, missão para a qual forças especiais americanas vêm treinando há bastante tempo, embora o presidente tenha minimizado essa necessidade. — Já temos esse material nuclear, porque ele está muito abaixo da terra — afirmou Trump, acrescentando que os iranianos não possuem equipamentos pesados suficientes para desenterrá-lo. Se Trump estiver correto — e muitos especialistas nucleares concordam que recuperar esse material seria extremamente difícil — surge uma questão fundamental: Se o combustível nuclear ficou efetivamente inacessível após os bombardeios americanos de junho de 2025 contra três importantes instalações nucleares iranianas, por que iniciar uma guerra? A declaração de Trump, repetindo comentários feitos diversas vezes nos últimos meses, enfraquece o argumento utilizado logo após o ataque inicial de fevereiro, quando alegou existir uma ameaça "iminente". Essa justificativa inicial acabou sendo contradita por declarações posteriores. Trump passou a elogiar periodicamente a nova liderança iraniana, inclusive o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto, classificando-o como mais "razoável". Também afirmou diversas vezes acreditar que os novos dirigentes abririam o Estreito de Ormuz e reduziriam o estoque de material nuclear enriquecido porque isso atenderia aos interesses econômicos do país. O vice-presidente americano, JD Vance, adotou exatamente esse discurso no mês passado, durante a assinatura do memorando de entendimento na Suíça. — A coisa mais interessante do progresso que alcançamos nas últimas semanas é ver integrantes do sistema iraniano, membros da alta liderança e até autoridades da Guarda Revolucionária dizendo: "Sabe de uma coisa? Podemos ter animosidade, podemos desconfiar uns dos outros, mas reconhecemos que a forma como lidamos com os Estados Unidos durante os últimos 47 anos foi um erro" — disse na ocasião. Na quarta-feira, porém, Trump utilizou outra palavra para se referir a esses mesmos líderes: "Escória." — Eles são pessoas doentes. São liderados por pessoas doentes. São pessoas violentas e cruéis — declarou. — No que me diz respeito, é pura perda de tempo negociar com eles.
Análise: Entre guerra e paz, EUA e Irã caminham para um novo normal de ataques e tréguas frágeis
Trump parece estar lidando com as consequências de um acordo de cessar-fogo costurado às pressas, que pouco avançou na resolução das principais questões que alimentam o conflito













