EUA atacaram mais de 90 alvos militares no Irã entre 7 e 8 de julhoSistemas de defesa aérea, depósitos de mísseis e drones e outros ativos foram o alvo do bombardeio. Ao menos 14 pessoas morreram nas investidas. Crédito: Comando Central dos EUADuas semanas após declarar paz no Oriente Médio, Trump enfrenta o colapso do cessar-fogo com o Irã. Na cúpula da Otan, ele ameaçou novas operações militares, mas enfrenta resistência interna e de aliados. O bloqueio aos portos iranianos é uma opção, mas sem efeito anterior. Trump pode optar por escaramuças esporádicas no Golfo Pérsico. O acordo de cessar-fogo deixou questões nucleares e de mísseis em aberto, complicando a situação. Trump critica a liderança iraniana, chamando-os de 'escória'.Há apenas duas semanas, ao inaugurar a Grande Feira Americana, o presidente Donald Trump declarou triunfalmente: “Pela primeira vez em 3 mil anos, teremos paz no Oriente Médio”.PUBLICIDADEEra uma bravata típica de Trump. Mas a “paz” que ele comemorava – o cessar-fogo com o Irã que, ontem, ele declarou “encerrado” após menos de um mês – já estava começando a desmoronar. O resultado talvez fosse previsível para um memorando de entendimento de 14 artigos que contornava questões importantes e foi elaborado às pressas para que Trump pudesse declarar que havia chegado a um acordo, qualquer acordo.Agora, o presidente americano parece estar enfrentando as consequências de sua pressa e de sua suposição – fruto de sua experiência no ramo imobiliário – de que seu adversário valorizaria os benefícios econômicos acima da ideologia revolucionária que tem impulsionado sua política desde a revolução iraniana de 1979. PublicidadeIsso o deixou diante de uma série de opções desagradáveis em meio a pontos de discórdia aparentemente intratáveis sobre o destino do programa nuclear do Irã – sem falar em seu programa de mísseis, seu apoio a grupos terroristas e a repressão ao próprio povo.O presidente dos EUA, Donald Trump, na cúpula da Otan em Ancara, Turquia, na quarta-feira, 8 de julho de 2026 Foto: AP /Francisco Seco Na cúpula da Otan em Ancara, na Turquia, ontem, após as duas partes terem trocado ataques, ele ameaçou lançar novas operações de combate de grande porte. Entre elas estavam a tomada de uma ilha iraniana de importância estratégica para o processamento de petróleo e ataques à infraestrutura do país e às usinas de dessalinização, o que, segundo especialistas, poderia constituir um crime de guerra (Trump afirmou, no entanto, que estava bastante hesitante em atacar as instalações de dessalinização).Sem apoio para o planoMas Trump já fez ameaças desse tipo sem levá-las adiante anteriormente, e acrescentou ontem que não previa um retorno à guerra em grande escala. Tal medida conta com pouco apoio interno, e alguns dos aliados republicanos do presidente temem as consequências econômicas e políticas a menos de quatro meses das eleições de meio de mandato. Ninguém está mais ciente desse calendário do que a liderança iraniana.PublicidadeO presidente poderia, em vez disso, reimpor o bloqueio americano aos portos iranianos, numa tentativa de cortar uma fonte econômica crucial do país. Mas isso exigiria uma presença americana contínua e intensa na região e, embora Trump tenha afirmado em abril que isso levaria ao colapso econômico do Irã, sua imposição anterior do bloqueio não teve esse efeito.Como a guerra no Irã está espalhando caos no mundo?Aumento nos preços dos combustíveis e energia por causa do fechamento do Estreito de Ormuz tem provocado protestos e tumultos em muitos países. Crédito: Carolina Marins (roteiro), Ariel Liborio (edição), Vitória Schmitz (produção) e Felipe Pedro (fotografia)Ou ele poderia optar por viver em um mundo sem guerra nem paz, um período de escaramuças esporádicas no Golfo Pérsico, pontuado por negociações periódicas, com o tráfego pelo Estreito de Ormuz – uma rota fundamental para o transporte de petróleo – bastante reduzido em relação aos cerca de 130 navios que passavam por ali diariamente antes da guerra. Os mercados de energia provavelmente se ajustariam; até certo ponto, isso já aconteceu.Mas, para um presidente que prometeu um confronto rápido e sem custos com um antigo adversário – “quatro a seis semanas” era a previsão da Casa Branca no início –, um conflito prolongado equivaleria a um fracasso quase total na missão que ele inicialmente se propôs a cumprir. E o custo seria astronômico: o Pentágono já solicitou ao Congresso cerca de US$ 70 bilhões para cobrir as operações iniciais na região do Irã, e o custo aumenta a cada semana.Publicidade“O problema é que todas as opções – aguentar, intensificar ou chegar a um acordo – são pouco atraentes, cada uma à sua maneira”, afirmou ontem Richard Fontaine, diretor executivo do Center for a New American Security e ex-assessor do senador republicano John McCain, morto em 2018. “O desfecho mais provável é uma série contínua de ataques de baixa intensidade, do tipo ‘olho por olho’, seguida por uma diplomacia frenética por parte dos mediadores, o surgimento de um novo e frágil cessar-fogo e, em seguida, provavelmente, outra rodada de ataques.”Fontaine acrescentou: “Será uma longa oscilação entre a guerra fria e uma guerra quente de baixa intensidade”.Pontas soltas Muitos dos problemas que Trump enfrenta hoje foram agravados pelo próprio acordo de cessar-fogo. Ele deixou em aberto, para uma negociação posterior na qual o presidente agora diz ter pouco interesse em prosseguir, o destino do estoque iraniano de combustível nuclear quase apto para bombas – o argumento mais proeminente entre as razões diferentes do governo para atacar o Irã em 28 de fevereiro.PublicidadePUBLICIDADEO acordo parecia conceder ao Irã pelo menos algum controle sobre a passagem pelo Estreito de Ormuz, a arma estratégica que Teerã – e, especificamente, a Guarda Revolucionária Islâmica – tem manipulado habilmente para elevar os preços do petróleo e que agora tem sido usada para justificar ataques a petroleiros e navios de carga que não cumprem suas novas regras.“O que estamos vendo agora é o Irã, e mais especificamente a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), tentando exercer controle sobre o estreito e declarando que esse controle é seu direito soberano”, disse Kevin Donegan, vice-almirante aposentado da marinha que serviu como comandante no Oriente Médio. “Essa é a principal carta que eles têm para jogar e, por isso, podemos esperar que continuem tentando interromper qualquer tráfego marítimo que utilize rotas diferentes das que eles divulgaram”, afirmou.Leia tambémPor que o acordo de paz entre Irã e EUA acabou e o que acontece agora?Ataques dos EUA a 90 alvos militares do Irã deixaram 14 mortos e 78 feridosGuardas Revolucionários do Irã afirmam ter atacado bases dos EUA no Kuwait e Bahrein, diz TV estatalAliados em suspensoO acordo não mencionava o arsenal de mísseis do Irã, a questão-chave para Israel. E dependia de um cessar-fogo no Líbano, embora as partes envolvidas nesse conflito, Israel e a milícia xiita Hezbollah apoiada por Teerã, não fossem signatárias do acordo. Além disso, estabeleceu um prazo irrealista, de 60 dias, para lidar diplomaticamente com essas e outras questões que meses de combate intenso não haviam conseguido resolver.PublicidadeÉ claro que ainda há muitas reviravoltas pela frente neste drama. Trump ameaçou novamente ontem tentar tomar a Ilha de Kharg, onde petroleiros gigantes carregam o petróleo do Irã e partem para os mercados mundiais. Ele pode tentar apreender o material nuclear enriquecido a 60% que se encontra nas profundezas do subsolo em Isfahan, uma missão para a qual as forças de Operações Especiais foram extensivamente treinadas, embora ele tenha descartado a necessidade disso ontem.“Já temos o material nuclear, porque ele está muito abaixo do solo”, disse ele, observando que os iranianos não dispõem do equipamento pesado necessário para desenterrá-lo.Se Trump estiver certo – e muitos especialistas em energia nuclear concordam que seria extremamente difícil recuperar o material –, isso levanta uma questão fundamental: se o combustível nuclear foi enterrado com sucesso durante o bombardeio americano de junho de 2025 contra três importantes instalações nucleares, por que ele entrou em guerra, para começar? Sua declaração ontem, uma repetição de comentários que ele fez várias vezes nos últimos meses, enfraquece o argumento que ele apresentou nos dias após o ataque inicial em fevereiro de que havia uma ameaça “iminente”.PublicidadeEntenda o que está em jogo no cessar-fogo entre Estados Unidos e IrãGuia do Adulto Premium é um programa semanal que descomplica assuntos do noticiário. Crédito: Larissa Burchard/EstadãoContradições típicas de TrumpEssa justificativa inicial foi superada por contradições posteriores. Trump tem elogiado periodicamente a nova liderança iraniana e até mesmo seu novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá assassinado, como sendo mais “razoáveis”. Ele afirmou várias vezes que, ao contrário de seus antecessores, os novos líderes abririam o estreito e reduziriam o arsenal nuclear, pois isso seria do seu interesse econômico.O vice-presidente JD Vance expressou exatamente essa opinião no mês passado, quando assinou o memorando de entendimento na Suíça.“O mais legal em relação ao progresso que alcançamos nas últimas semanas é que você vê pessoas dentro do sistema iraniano, altos dirigentes e até mesmo autoridades do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica dizendo: ‘Sabe de uma coisa? Podemos ter alguma animosidade, podemos ter alguma desconfiança, mas reconhecemos que a forma como temos lidado com os EUA há 47 anos é um erro’”, disse ele.PublicidadeEm suas declarações ontem, Trump usou uma palavra diferente para se referir a esses líderes: “escória”. “São pessoas doentes. São lideradas por pessoas doentes e são pessoas cruéis e violentas”, disse ele, acrescentando: “No que me diz respeito, é apenas uma perda de tempo lidar com eles”.
Cessar-fogo no Irã se desintegrou. O que Trump fará agora?
Presidente enfrenta consequências de acordo improvisado, com poucos avanços pelo fim da guerra













