O presidente Donald Trump e seu homólogo russo, Vladimir Putin, resistem à ideia de que potências supostamente mais fracas os tenham levado a um impasse, e ambos recorrem a negociações para tentar obter a capitulação que não conseguiram no campo de batalha. O Irã e a Ucrânia têm reagido de forma firme a essa mentalidade de “a força faz o direito”, com autoridades de alto escalão adotando um tom ainda mais desafiador nos últimos dias. Em uma carta aberta a Putin neste mês, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ironizou o fato de Putin se apegar ao poder enquanto envelhece. “Você não esperava uma resistência em larga escala da Ucrânia, e não previu que as coisas chegariam a esse ponto”, escreveu. Após o Irã lançar uma barragem de mísseis contra Israel na semana passada em retaliação a ataques contra o Hezbollah no Líbano — e antes do anúncio de um entendimento entre EUA e Irã, na noite de domingo —, Mohamad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador, ameaçou novas ações. “Até que haja um compromisso sincero para restaurar a confiança, a resposta do Irã não mudará”, escreveu ele na plataforma social X. Confrontos custosos As negociações para encontrar a paz na Ucrânia chegaram a um impasse pouco antes do início da guerra no Irã, com a Ucrânia exigindo garantias de segurança mais robustas para ceder território do que a Rússia estava disposta a aceitar. A diplomacia, em grande parte, produziu apenas trocas de prisioneiros entre os lados. Os Estados Unidos, que antes tentavam atuar como principais mediadores, deslocaram seu foco para o Irã. Autoridades americanas e iranianas agora dizem que um acordo de paz com o Irã pode estar próximo. Mas ele parece consistir inicialmente em uma estrutura de negociações que deixará os temas mais difíceis — como o programa nuclear iraniano e o alívio de sanções — para depois. Espera-se que permita a reabertura, ao menos temporária, do Estreito de Ormuz ao transporte marítimo. “Ambos os conflitos produziram um resultado semelhante: uma potência mais fraca conseguiu prender uma mais forte em um confronto custoso”, escreveu Fiona Hill, que comandou os assuntos russos e europeus no Conselho de Segurança Nacional durante o primeiro governo Trump, em um relatório do Brookings Institution na semana passada. “Assim como Putin, Trump não tinha um plano para o que aconteceria depois.” A raiz do problema, segundo Hill, é que ambos os presidentes iniciaram guerras com compreensão limitada do lado oposto. “Ambos projetaram suas próprias visões centralizadas sobre seus papéis no Irã e na Ucrânia, achando que, se decapitassem o sistema, ele colapsaria”, disse ela. Putin não esperava uma forte resistência ucraniana; Trump ignorou alertas de que o Irã poderia fechar o Estreito de Ormuz e subestimou a capacidade iraniana de retaliar e atingir aliados dos EUA na região. Também não houve levante popular no Irã contra seus líderes autoritários, como Israel e os Estados Unidos haviam incentivado. Embora as campanhas de bombardeio dos Estados Unidos e da Rússia tenham tido efeitos devastadores, analistas observam que o poder aéreo sozinho não se mostrou decisivo. “Embora a invasão agressiva da Rússia difira do objetivo de Washington de conter a ameaça expansionista do Irã, ambos os países estão tendo igual dificuldade em alinhar seus objetivos finais aos meios disponíveis para alcançá-los”, escreveu James F. Jeffrey, do Washington Institute e ex-enviado ao Oriente Médio, na revista Foreign Affairs. A Ucrânia conseguiu deter o avanço das tropas russas em parte ao produzir drones de nova geração, mudando a face da guerra moderna, enquanto os Estados Unidos não demonstraram interesse em enviar tropas para dentro do Irã. A falta de compromisso prolongou as duas guerras. Estados Unidos e Rússia apresentaram exigências extensas, mas pouco ofereceram em troca. Putin, em particular, não recuou de suas demandas máximas, incluindo a posse de territórios que seu exército não conseguiu conquistar. Trump também revisou repetidamente termos já acordados com mediadores, frustrando os iranianos. O Irã afirmou que o processo foi prejudicado por “mensagens contraditórias, mudanças frequentes de posição e demandas, além de repetidas violações do cessar-fogo”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, na semana passada. Nenhum dos objetivos iniciais — que Trump dizia que seriam alcançados em poucas semanas — se concretizou. O mesmo ocorre com Putin. Ao invadir a Ucrânia, o Kremlin esperava tomar Kyiv rapidamente, instalar um governo favorável e ser recebido pela população. Isso foi há mais de quatro anos. Apesar de um saldo estimado de mais de 350 mil soldados mortos, Moscou ainda não controla totalmente três das quatro províncias ucranianas que reivindica. Questionado este mês sobre a mais recente proposta de paz de Zelensky, Putin afirmou que as “operações militares” — ainda evita chamá-las de guerra — terminarão “quando atingirmos nossos objetivos”. Veja fotos do Estreito de Ormuz, foco de tensão entre Irã e Estados Unidos 1 de 12 Navio comercial visto da costa de Dubai em meio ao fechamento do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 2 de 12 Estreito de Ormuz é uma região entre Irã e Omã — Foto: Reprodução/Nasa X de 12 Publicidade 12 fotos 3 de 12 Navios na costa de Dubai em meio à crise no Estreito de Ormuz — Foto: AFP 4 de 12 Imagem de satélite mostra a localização do Estreito de Ormuz — Foto: Divulgação/Nasa via AFP X de 12 Publicidade 5 de 12 Navio é visto perto da costa de Ras al-Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, a caminho do Estreito de Ormuz — Foto: AFP 6 de 12 Navio da Guarda Revolucionária em exercício no Estreito de Ormuz — Foto: SEPAH NEWS / AFP X de 12 Publicidade 7 de 12 Lancha se aproxima de navio no Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe CACACE / AFP 8 de 12 Lancha trafega pelo Estreito de Ormuz perto da costa dos Emirados Árabes Unidos — Foto: FADEL SENNA / AFP X de 12 Publicidade 9 de 12 Cargueiro tailandês foi atacado perto do Estreito de Ormuz, no último dia 11 — Foto: AFP 10 de 12 Navios petroleiros na região do Estreito de Ormuz — Foto: Giuseppe Cacace/AFP X de 12 Publicidade 11 de 12 Petroleiros seguem fundeados no Terminal de Carga de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos, no Estrei no Ormuz — Foto: AFP 12 de 12 Navio da Marinha iraniana participa de exercícios navais na região do Estreito de Ormuz — Foto: EBRAHIM NOROOZI /JAMEJAMONLINE/ AFP PHOTO X de 12 Publicidade Passagem crucial para o comércio mundial é tema central na guerra entre países Na realidade, tanto Washington quanto Moscou “foram derrotados na busca dos objetivos que tinham”, disse Hill. As circunstâncias dos dois conflitos não são idênticas. A Ucrânia não ameaçava a Rússia, enquanto o Irã confronta os Estados Unidos desde a Revolução Islâmica de 1979 por meio de ataques terroristas, guerras por procuração e outras ações contra interesses americanos. Os Estados Unidos não tinham objetivos territoriais no Irã, enquanto Putin ocupa quase 20% da Ucrânia. Militarmente, a Rússia começou a desestabilizar a Ucrânia ao anexar a Crimeia e apoiar movimentos separatistas a partir de 2014. Já os EUA evitaram um conflito direto com o Irã até a campanha de bombardeios de 12 dias em junho passado, realizada com Israel. O Irã está mais inclinado do que a Ucrânia a fechar um acordo devido às suas condições econômicas mais difíceis e ao quase inexistente apoio externo, disse Vali R. Nasr, professor da Johns Hopkins School of Advanced International Studies. Ao mesmo tempo, acrescentou, os Estados Unidos e Israel falharam em seus objetivos estratégicos nas duas guerras recentes. “Então os iranianos querem, basicamente, que os Estados Unidos venham à mesa com a percepção de que não foram derrotados, e que a conquista militar do Irã não está no horizonte”, disse ele. Conheça armamentos usados pela Ucrânia na guerra contra a Rússia 1 de 10 Tanque Leopard-1A5 fornecido pela Otan dispara enquanto soldados ucranianos realizam exercícios antes de se moverem para a linha de frente na região de Kharkiv — Foto: David Guttenfelder/The New York Times 2 de 10 Presidente do comitê de defesa da Alemanha, Marcus Faber disse que a Ucrânia estava livre para usar 'todos os materiais' doados, incluindo os tanques de batalha Leopard-2 de fabricação alemã — Foto: Maciek Nabrdalik/The New York Times X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Soldados ucranianos testam tanque Leopard-1A5; equipamento foi doado por aliados ocidentais para a Ucrânia — Foto: David Guttenfelder/The New York Times 4 de 10 Soldados ucranianos se preparam para seguir para a linha de frente no veículo blindado Bradley, doado pelos Estados Unidos — Foto: Nicole Tung/The New York Times X de 10 Publicidade 5 de 10 Soldados ucranianos preparam munição em abril de 2024, quando ajuda americana à Ucrânia estava paralisada — Foto: Nicole Tung/The New York Times 6 de 10 Membro de equipe de artilharia ucraniana armazena munições em posição de tiro perto da cidade de Vovchansk, no norte da cidade ucraniana de Kharkiv — Foto: Finbarr O'Reilly /The New York Times X de 10 Publicidade 7 de 10 Instalações de manufatura da Skyeton, empresa ucraniana que fabrica drones de longo alcance com sistemas automatizados para voar — Foto: Sasha Maslov/The New York Times 8 de 10 Soldado na região nordeste de Kharkiv, na Ucrânia, prende explosivos a um drone para uma missão de ataque a um alvo russo — Foto: Finbarr O'Reilly/The New York Times X de 10 Publicidade 9 de 10 Novos mísseis ATACMS são as mais novas armas usadas pela Ucrânia contra a Rússia — Foto: Reprodução 10 de 10 Os Estados Unidos enviaram secretamente uma nova versão de longo alcance do sistema ATACMS para a Ucrânia em abril de 2024 — Foto: Exército dos EUA/The New York Times X de 10 Publicidade Embora não seja possível afirmar com precisão todos os armamentos utilizados por Kiev, analistas já identificaram veículos de infantaria blindados Bradley, dos Estados Unidos, e Marder, da Alemanha; países apoiaram incursão ucraniana no território russo Na Ucrânia, a Rússia exige, no mínimo, que Kiev retire suas forças de uma faixa estratégica da província de Donetsk da qual não conseguiu expulsá-las. Em ambas as guerras, Trump teria prejudicado a credibilidade dos Estados Unidos, segundo Hill. Ele não cumpriu sua promessa de negociar a paz na Ucrânia e enfraqueceu a OTAN no processo, além de não atingir seus objetivos no Irã nem proteger aliados do Golfo contra retaliações iranianas. Moscou e Kiev esperavam que Trump pudesse convencer o outro lado a aceitar termos, mas agora ambos buscam alternativas, segundo ela. No fim, analistas dizem que a ausência de resolução enfraquece tanto os Estados Unidos quanto a Rússia e pode acelerar uma ordem internacional mais descentralizada. “O impasse na Ucrânia desacredita a Rússia como força militar global”, escreveu Hill. “Ele corrói a imagem de indestrutibilidade de Putin, da mesma forma que o impasse no Golfo Pérsico mina os Estados Unidos e Trump.”
Análise: EUA e Rússia interpretaram mal Irã e Ucrânia antes de atacá-los
Iranianos e ucranianos têm reagido de forma firme a ideia de que 'a força faz o direito', com autoridades de alto escalão adotando um tom ainda mais desafiador








